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domingo, 6 de fevereiro de 2011

POESIA E PROFECIA: VISÕES DE PE. VIEIRA E FERNANDO PESSOA

             
Paraguassu de Fátima Rocha

Neste ensaio, baseado no texto “Pessoa e Vieira: dois profetas messiânicos” de José Augusto Seabra, procura-se estabelecer a relação entre a poesia e a profecia sebastianista, apontar as razões para o surgimento das profecias e explicar o porquê da associação entre Pe. Antonio Vieira e Fernando Pessoa

A RELAÇÃO ENTRE A POESIA E A PROFECIA SEBASTIANISTA

Para o crítico literário José Augusto Seabra no livro O heterotexto pessoano, essa relação se estabelece   através de uma revelação esotérica da escrita silenciosa do poeta e a voz ardente do profeta. A profecia seria, portanto, uma visão mensagem inteligível que cabe ao profeta interpretar e transmitir. Em contrapartida, a poesia é a visão dos acontecimentos na sua forma corpórea. Tanto  na profecia quanto na poesia, enfrentamos a mesma lógica, a da coexistência da verdade e da não verdade, o que para Fernando Pessoa representa o “fingimento”, sentimento esse expresso nos seus poemas “Autopsicografia” e “Isto”.

RAZÕES PARA O SURGIMENTO DOS PROFETAS E DAS PROFECIAS

Segundo Maria Isaura Pereira de Queiroz em O messianismo no Brasil e no mundo (1965), três condições são importantes para o surgimento do messianismo: a existência de uma comunidade oprimida, a esperança na vinda de um emissário divino que a liberte e a crença num paraíso, simultaneamente sagrado e profano.

A ASSOCIAÇÃO ENTRE PE. ANTÔNIO VIEIRA E FERNANDO PESSOA

Estabelece-se esta associação partindo das condições propostas por Maria Isaura. Tanto Vieira, o escritor barroco do século XVII quanto Pessoa, o poeta modernista do século XX, viveram situações semelhantes em suas épocas. Vieira enfrentou as crises religiosas, ideológicas e políticas que foram as questões entre o judaísmo e o cristianismo que irão desembocar no Sebastianismo restaurador – a crença no retorno de D. Sebastião. O Sebastianismo teve grande repercussão entre os jesuítas, e Vieira foi um dos principais divulgadores desse conceito.  Já Fernando Pessoa, que teve em Vieira um dos inspiradores centrais do seu profetismo poético, como pode-se observar no poema dedicado ao padre, parte integrante de Mensagem (1998),  baseado em fatos históricos como o Ultimatum inglês e que colocava Portugal diante de sua triste realidade – a desoladora decadência de uma nação outrora soberana. Esse livro, portanto, é fruto de pesquisa histórica e começou a ser escrito num momento do surgimento dos movimentos da Renascença e do Saudosismo (pensamento espiritualista e de forte impregnação sebastianista),  resultado da tentativa de reconstruir Portugal.

ANTONIO VIEIRA

O céu strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

No imenso espaço seu de meditar,
Constelando de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.


Outro fato que relaciona Pe. Antonio Vieira e Fernando Pessoa é que ambos comentaram em suas obras as trovas e os textos do poeta e trovador Gonçalo Annes Bandarra (séc. XVI), também conhecido como o sapateiro de Trancoso, o qual prenunciava a vinda de um rei que traria consigo um outro tempo “o tempo desejado”, tornando-se universal imperador.

TROVAS DE BANDARRA

Este Rei tem tal nobreza
Qual eu nunca vi em Rei:
Este guarda bem a lei
Da justiça e da grandeza
...........................................
Serão os Reis concorrentes
Quatro serão, e não mais;
Todos quatro principaes
Do Levante ao Poente.
Os outros Reis mui contentes
De o verem Imperador
E havido por Senhor...

Vieira, em “Esperanças de Portugal”, comenta sobre Bandarra: “A este universal conhecimento de Cristo diz Bandarra que sucederá, por coroa de tudo, a paz universal do Mundo, tão cantada e prometida por todos os profetas, debaixo de um só pastor e de um só monarca.” Fernando Pessoa no poema intitulado “O Bandarra” diz:
“Sonhava anônimo e disperso,/O império por Deus mesmo visto,/Confuso como o Universo/E plebeu como Jesus Cristo./.../”
            Ambos referem-se a D. Sebastião, e Vieira acentua o pacifismo ecumênico das trovas ao comentá-las,  enquanto Pessoa tenta traduzir a sua mensagem de universalidade.
            O livro Mensagem de Fernando Pessoa, embora seja um poema épico, difere dos demais por focalizar-se no futuro e não no passado, ele se concentra no que está por vir, ou seja, o poeta encara os acontecimentos do passado como sinais misteriosos, que devem ser decifrados a fim de antever neles o que ainda está por acontecer.
            Assim como os profetas tentam transmitir para os não iniciados os códigos simbólicos do esoterismo, Fernando Pessoa tenta desvendar a linguagem cifrada da História. Por isso, Pessoa começa falando do “futuro do passado” e menciona depois “o som do presente desse mar futuro.” Seus poemas parecem criar um clima de magia em torno de presságios e adivinhações, sugerindo que algo grandioso está por acontecer. Quando? “Não sei a hora, mas sei que há a hora.”

REFERÊNCIAS
MOISES, Carlos Felipe. Roteiro de leitura: mensagem de Fernando Pessoa: ROT. Sao Paulo: Ática, 1996.
PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O messianismo no Brasil e no mundo. Belo Horizonte: Dominus, 1965.
SEABRA, Jose Augusto (Org.). O heterotexto pessoano. Sao Paulo: Perspectiva, 1988.
     

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