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sexta-feira, 16 de março de 2012

A RECRIAÇÃO DO MITO EM COPPOLA´S DRACULA


Paraguassu de Fátima Rocha

Introdução
O filme Coppola’s Dracula (1992), de Francis Ford Coppola, realizado num momento em que sua produtora enfrentava graves problemas financeiros foi logo considerado um lançamento meramente comercial. Entretanto, a natureza de grande cineasta prevaleceu, dando origem a uma das mais controversas produções do gênero de horror, o que lhe rendeu comentários positivos tanto da crítica quanto do público, além de três prêmios da Academia – melhor figurino, melhor edição de som e melhor maquiagem –, cujos efeitos foram conseguidos sem nenhuma intervenção tecnológica, fazendo uso apenas de elementos já consagrados pelo cinema, como por exemplo, as trucagens e equipamentos antigos, dentre outros. Procurando resgatar o mito do Conde Drácula descrito por Bran Stoker em seu romance Drácula (1897), Coppola mantém, na sua quase totalidade, a mesma estrutura narrativa da obra de Stoker.
Nesse contexto figuram a linearidade, somente quebrada na seqüência em que  Mina Harker recupera o seu passado como a esposa de Drácula, Elisabeta; o caráter epistolar do romance, que no filme é trabalhado não apenas como uma forma de expor uma mesma história de acordo com as diferentes perspectivas das personagens, mas como um caráter definidor das mudanças ocorridas nas suas vidas, caracterizando assim o leitmotiv da narrativa de Coppola. Tome-se como exemplo as mensagens enviadas, primeiro pelos turcos, a qual vai determinar o suicídio da esposa do nobre guerreiro da Transilvânia e a segunda, encontrada por ele junto ao corpo de sua amada, vai justificar a reviravolta na trama e, que, seguramente, funciona como uma saída encontrada pelo cineasta para inserir características do gênero romântico numa contextura eminentemente de terror. Além desses aspectos, o diretor, ao proceder a adaptação do romance de Stoker, também reelabora o perfil de algumas personagens, dentre eles o de Drácula que será analisado posteriormente, o de Mina Harker e mais intensamente o de sua amiga Lucy, que devido à sisudez do romance não tem retratado todo o seu caráter sedutor e éedutor e ratado todo o seu carater z do romance nracteristicas sa. Esse ilhete to figuram a linearidade, somente quebrada na se apresentada como uma jovem meiga, atraída por Drácula e que entrega-se ao poder das trevas.
 Ainda com relação às personagens, Coppola optou pela permanência da maioria delas, com exceção da presença da mãe de Lucy e aquelas secundárias que vão introduzir o universo da Transilvânia a Jonathan Harker durante sua viagem ao palácio do vampiro – há apenas uma tomada em que Harker recebe um crucifixo das mãos de uma jovem, referência direta aos costumes da região –; a omissão da primeira vítima de Drácula quando chega à Londres e a ausência dos empregados que trabalharam no transporte dos caixões carregados da terra natal do vampiro para a sua nova morada; e, dos funcionários responsáveis pela localização dos outros imóveis do conde que no romance exercem papel importante por colaborem com Van Helsing e seus amigos na captura de Drácula.
Buscando aporte nas considerações de Robert Stam (2005) sobre a adaptação e com base nas diferenças apontadas nas cenas acima descritas, é que vai-se discutir as questões inerentes à adaptação filmíca de Coppola do romance de Stoker.

Discussões sobre adaptação: questões teóricas
Se hoje o cinema figura entre as grandes artes e a adaptação fílmica merece destaque entre estudiosos e críticos, durante algum tempo ambos esbarraram em dogmas que limitavam a sua área de ação. Além das questões envolvendo fidelidade e infidelidade, Robert Stam (2005) levanta outros aspectos que, segundo ele, geraram campos de hostilidade na interpretação dos novos conceitos, especialmente no que diz respeito à adaptação de textos literários para o cinema. Entre eles, o autor destaca a crença na superioridade da literatura em relação ao cinema; a rivalidade entre as duas artes; a iconofobia; a exaltação da palavra escrita; a facilidade de se fazer um filme em comparação à elaboração de um texto literário; o cinema que estaria destinado a atingir classes menos privilegiadas culturalmente; e, a dependência do cinema do texto literário.
O fato do cinema ser considerado arte menor em relação às outras artes merece um comentário do diretor de Coppola´s Dracula e é enunciado através da voz de Mina Harker quando convidada pelo conde para conhecer o cinematógrafo, que para ele representa a maravilha do mundo civilizado.  A jovem, entretanto, sugere que se ele busca por cultura deve visitar um museu. Outra referência explícita à valorização das outras artes, e nesse caso, ao teatro, é a placa mostrada em seguida que anuncia a estreia da peça Hamlet de Shakespeare. 
Foi somente quando cinema e literatura passaram a ser vistos como artes distintas, operando com os seus próprios signos, que o processo de adaptação assumiu novos contornos. Críticos como Brian McFarlane (1996), Timothy Corrigan (1999) e James Naremore (2000) redimensionaram o campo de estudo. McFarlane propõe uma análise baseada “na espécie de adaptação que o filme se propõe a ser” (McFarlane, 1996, p. 22), Corrigan e Naremore enfatizam que os estudos sobre a adaptação devem respeitar o momento histórico-cultural em que o filme é produzido e a especificidade dos diferentes meios, e nesse contexto é válido salientar o pensamento de Stam (2005) sobre a impossibilidade real de se produzir uma obra literalmente fiel à estrutura literária:
Uma adaptação é automaticamente diferente do original devido à mudança do meio. A alteração de um meio verbal single-track como o romance, para um meio multitrack como o filme, que pode representar não só com palavras, mas também com música, efeitos sonoros, e imagens fotográficas, explica a improbabilidade, e eu diria mesmo a ‘indesejabilidade’, da adaptação literal. (STAM, 2005, p. 03-04)

Ao estudar a obra de Gérad Gennete (1981) sobre a transtextualidade, Stam delineia os parâmetros que vão influenciar uma das atuais tendências para a análise das adaptações fílmicas. O autor de Theory and Practice of Adaptation argumenta que todas as formas propostas por Gennete – intertextualidade, paratextualidade, metatextualidade, arquitextualidade e hipertextualidade são sugestivas para a teoria e a análise da adaptação, porém enfatiza que essa última apresenta aspectos relevantes para o objeto do estudo, uma vez que se refere à relação de um texto (hipertexto) com um texto anterior (hipotexto) que é modificado, transformado, elaborado ou expandido. Para o autor, “Adaptações fílmicas, nesse sentido, são hipertextos derivados de hipotextos pré-existentes que foram transformados por operações de seleção, amplificação, concretização e atualização”[1] (STAM, 2005, p. 31). Evidentemente que o campo de estudos sobre a adaptação fílmica não se limita às relações transtextuais. Aspectos como a linguagem cinematográfica que envolve além dos elementos da narrativa referentes à voz do narrador, focalizador, construções espaço-temporais, as questões técnicas, tais como: iluminação; montagem, corte e edição; som; e, mis-em-scene, também contribuem nesse sentido.

Bran Stoker, as fontes matriciais e o hipertexto
A primeira narrativa gótica sobre as aventuras de Conde Drácula escrita em 1897 por Bram Stoker vai contar, através da perspectiva das personagens, o envolvimento dessas com um ser mítico, cuja lenda tem origem na Europa Central, atual Romênia, e remonta o século XIV. Supostamente baseada em fatos históricos, a narrativa de Stoker explora o tema do vampirismo – a necessidade imperiosa do sangue como alimento e como garantia de vida eterna –, bem como nuances de crueldade utilizadas por Vlad durante sua permanência no trono da Valáquia, as quais  consistiam no uso de  métodos perversos para a eliminação de seus inimigos.
A história do imperador da Romênia é então recuperada por Stoker e a natureza do mal é traduzida na voz do cientista Van Helsing. Nesse sentido, tem-se o que Raul Filker em Mito e Paródia: entre a narrativa e o argumento denomina de modalidade temática direta por escolha deliberada. Para o autor, a escolha de um tema já conhecido objetiva “desenvolver através de interpretação, modificação ou acréscimo, um diálogo com o tema em questão onde a nova voz se privilegia do espaço já ocupado pela antiga, que conta com longa tradição de difusão” (FILKER, 2000, pág. 70).   Segundo a personagem:

Existem criaturas como vampiros; alguns de nós temos evidências de que eles existem. Embora não tenhamos a prova através da nossa própria experiência infeliz, os ensinamentos e as lembranças do passado apresentam provas suficientes para as pessoas sensatas. [...] nosferatu não morre como a abelha quando ele fere alguém. Ele somente se fortalece; e ficando mais forte, tem ainda mais poder para exercer suas forças demoníacas. Este vampiro que se encontra entre nós tem a força de vinte homens juntos; ele é mais esperto do que um mortal, pela sua esperteza ele tem sobrevivido por anos; ele conta com a ajuda da necromancia, o que significa, segundo a sua etimologia, a divinização do ser alcançada pela morte e toda morte que ele pode provocar; ele é irracional, [...]; ele é um demônio insensível, sem coração; ele pode, dentro de suas  limitações, aparecer, de acordo com sua vontade, em qualquer lugar e tempo, na forma que lhe convier; ele pode, dentro dos seus limites,  comandar a natureza: a tempestade, o nevoeiro, os trovões; ele pode comandar todas as formas vivas [...]; ele pode crescer e se tornar pequeno; e às vezes pode desaparecer para depois retornar incógnito. (STOKER, 2007, p. 252) (Tradução livre da autora)[2]


Quando vistos pela perspectiva de Filker, os atos perversos praticados pelo vampiro de Stoker representam a interpretação do romancista para as lutas sangrentas comuns ao período medieval e que determinavam o poder que os conquistadores exerciam sobre seus inimigos. A transposição espaço-temporal para a Inglaterra Vitoriana é outro aspecto presente no romance que confirma o pensamento de Filker e se refere à modificação do ambiente o que vai caracterizar, também, uma tradução cultural.
Nesse contexto, Drácula traz à luz discussões como a forte influência turca sobre os povos da Romênia; a crítica ao colonialismo e à sociedade vitoriana moralista; a duplicidade de caráter, o isolamento de Drácula e a sua incapacidade de sobreviver; fatos e costumes do povo da Transilvânia, uma vez que as personagens retomam elementos medievais na tentativa de eliminar o mal; a busca de evidências reais para explicar a existência de Drácula; a perda de valores ancestrais; a sexualidade expressa pela oposição entre o recato de Mina e o poder de sedução de Lucy, o qual se intensifica na figura de Drácula; o medo do envelhecimento e da morte; as questões envolvendo o misticismo e a ciência, entre outras.
A lenda do príncipe da Valáquia é utilizada no romance de Stoker como fonte matricial e pressupõe uma adaptação, fenômeno esse, que vai se repetir no hipertexto de Coppola. Nas narrativas que fazem uso da tradição oral como fonte principal observa-se a intersecção de elementos comuns que vão caracterizar a recriação do mito, ora pela intertextualidade, ora pela tradução cultural, ou pela recriação propriamente dita.

Relações transtextuais em Coppola´s Dracula
Partindo da premissa de que a recriação, ou conforme salienta Stam “as palavras [...] que iniciam com o prefixo “re” enfatizam a função recombinante da adaptação”[3] (STAM, 2005, p. 25), Coppola além de buscar nas antigas lendas de Drácula a inspiração para sua obra, atua como agente transformador do mito, especialmente quando atribui à personagem características humanas como a sensibilidade, a generosidade, e a capacidade de amar. Para isso, o diretor de Coppola´s Drácula menciona na sequência inicial do filme o fracasso de uma relação do passado. Nesse prólogo, a narração em voz-over anuncia os motivos que levaram o príncipe Vlad a renunciar à religião e optar pela eternidade.
Numa seqüência que reúne, além da voz do narrador, elementos como a música, a qual cria um clima de tensão e suspense em função dos acordes graves de cordas e a batida crescente dos metais, o que representa o estado emocional da personagem ao demonstrar toda a sua ira contra Deus e sua consequente devoção ao demonismo e, ainda o contraste de cores entre a silhueta em negro dos soldados em combate contra um fundo em tons avermelhados, que vai remeter à oposição entre morte e vida, a história é contada – no ano de 1462 o exército turco invade a Romênia e um cavaleiro da Transilvânia, conhecido como Drácula, é convocado para lutar em nome da igreja numa batalha que poderia lhe custar a vida. Ao partir, deixa sua esposa Elisabeta, seu único e verdadeiro amor. Drácula vence a batalha e os turcos indignados enviam uma mensagem à Elisabeta declarando-o morto. Ao retornar, Drácula descobre que sua esposa havia se suicidado e que, portanto, sua alma não teria salvação. Drácula não aceita a justificativa da igreja, e se entrega aos poderes das trevas ao introduzir sua espada no centro da cruz. Drácula ao beber o sangue que verte da cruz é condenado à vida eterna.
Embora a produção de Coppola pertença à categoria dos filmes de horror devido a algumas características apontadas por Linda Williams em seu ensaio “Film bodies: gender, genre, and excess”, tais como, “violência, arrepios, sangue, castração e sadomasoquismo”[4] (WILLIAMS, 2004, p. 219),  o prólogo adicionado pelo cineasta vem favorecer a mudança de gênero, pois apresenta relações intertextuais com o gênero do romance, ou nos termos de Williams, o gênero melodramático, cuja classificação se deve aos pontos que despertam “emoção, choro, aflição e sofrimento”[5] (WILLIAMS, 2004, p. 219). 
As relações intertextuais não se limitam apenas à mudança de gênero, mas se estendem também às homenagens que Coppola presta a F.W. Murnau, Stanley Kubrick e William Friedkin, conforme declara nas gravações feitas para a edição especial do DVD Bran Stoker´s Dracula (2007). Do filme de Murnau, Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922) o diretor recupera a cena em que Drácula levanta do caixão; o sangue que espirra das paredes laterais do quarto de Lucy sobre a sua cama remete ao filme The Shining (1980), de Kubrick e, o vômito de Lucy sobre Van Helsing é uma clara referência à cena do filme de Friedkin, The Exorcist (1973).
A produção do DVD que inclui, além dos comentários de Francis Coppola sobre o filme, trailers e documentários relacionados ao making of, a criação do figurino, efeitos visuais e cortes, enquadra-se no conceito de paratextualidade discutido por Robert Stam, na medida em que a paratextualidade, segundo o autor, “pode evocar todos aqueles materiais próximos ao texto, tais como posters, trailers, revisões, entrevistas com o diretor e outros”[6] (STAM, 2005, p. 28). No plano da hipertextualidade, Coppola lança mão, afora o texto de Bran Stoker, das informações contidas no livro sobre vampiros consultado por Van Helsing. Ali, a personagem descobre a origem de Drácula, sua trajetória de violência, destruição e vitimizações e o poder que exerce sobre a natureza e as mais diferentes criaturas, bem como os meios que devem ser utilizados para que o monstro seja eliminado.
A adaptação fílmica quando vista sob o prisma da transtextualidade amplia os horizontes da obra cinematográfica através de um sistema de signos próprios que a torna independente e possibilita a transformação e a atualização do texto adaptado.  Nesse sentido, a narrativa fílmica conta ainda com outros elementos que determinam a recriação do contexto literário, tais como: temporalidade, enredo, voz do narrador, focalizador, técnicas utilizadas e o mis-en-scene. Como alguns desses aspectos já foram abordados anteriormente neste artigo, o enfoque a seguir será dado no focalizador, no mis-en-scene e nas técnicas utilizadas na produção do filme.
A troca de correspondências entre Jonathan e Mina Harker vai definir a posição do focalizador no filme de Coppola, considerando-se que esse representa o agente que vê e sente as ações, substituindo a voz do narrador no romance. Na narrativa fílmica ora analisada, são três os exemplos de focalização. Nas seqüências iniciais do filme duas realidades distintas são registradas pelas personagens em questão: o mundo sombrio de Drácula e o universo da Inglaterra vitoriana.
É, por exemplo, através do olhar de Jonathan que o espectador percorre os caminhos que levam a personagem até o castelo do conde, conhece o vampiro e seu estranho modo de vida, presencia suas ações e vê reveladas suas emoções que oscilam entre a agressividade e a ternura, especialmente quando vê a foto de Mina e reconhece nela o seu amor perdido. Nesse momento, derrama-se em lágrimas ao mesmo tempo em que sua sombra move-se de modo diferente, fazendo com que seus braços alcancem o pescoço de Jonathan, na tentativa de matá-lo. As projeções em diferentes ângulos da sombra do vampiro vão representar o caráter ambíguo de Drácula, uma espécie de alter-ego disposto a executar o que a personagem não pode ou não consegue. A focalização aqui também engloba as ações e emoções de Jonathan ao adentrar no universo de terror imposto pela criatura e que se estendem até o momento de sua fuga do castelo.
No contexto da focalização, Mina, da mesma forma introduz o espaço ficcional de uma Inglaterra moralista e preconceituosa, lugar de desejos intensos, porém reprimidos, mesmo na pura e recatada jovem que se distrai observando figuras em um livro que mostra casais nas mais diferentes posições sexuais, deixando-a encabulada. Sua amiga Lucy, em contrapartida, expressa claramente, sob o olhar atônito de Mina, sua libido ao comentar que havia experimentado uma das posições durante o sono.
Nessas seqüências iniciais ocorre uma alternância do focalizador (entre Jonathan e Mina), entretanto, na cena seguinte que se desenrola num clima de sedução extrema e Lucy conhece seus três pretendentes, Drácula começa a exercer a função de focalizador. Novamente ocorre uma projeção da sombra do vampiro, porém agora, sobre Mina, demonstrando que os acontecimentos daquela noite estavam sendo observados por ele. A presença do vampiro, sentida por Mina, aumenta a tensão da narrativa e já anuncia a chegada dele à Inglaterra. Esse cenário de angústia vai se repetir enquanto as duas brincam no jardim da casa de Lucy, mas dessa vez o recurso utilizado pelo diretor consiste na sobreposição de imagens – o rosto de Drácula na parte superior do quadro retrata a ação e a emoção das jovens.
A alternância na focalização vai trazer à cena outro elemento importante na revelação do jogo de contrastes no filme de Coppola: a mis-en-scene, definida como o conjunto de elementos pré-existentes à filmagem. Se por um lado, a câmera mostra o ambiente decadente e sem vida do castelo de Drácula, como por exemplo, a sala parcamente decorada onde é servido o jantar a Jonathan, e os objetos ali colocados e iluminados apenas pela luz das velas, remetem ao passado distante do conde; por outro, destaca a opulência da casa de Lucy, ricamente decorada e com plantas espalhadas por todos os cantos expostas a uma luminosidade intensa que demonstram a vivacidade do ambiente.
As seqüências acima descritas antecipam a partida de Drácula da Transilvânia que ocorre após uma discussão entre ele e Jonathan. A transição espaço-temporal entre o momento de despedida de Drácula de sua morada e sua chegada à Inglaterra é marcada pelo efeito de escurecimento gradual da tela (fade out) em que era mostrado o rosto do conde em primeiro plano. Em seguida a tela se abre (fade in) para mostrar no detalhe a carta que Mina recebera de Jonathan, justificando sua ausência. Drácula aproxima-se de Londres durante uma tempestade e sua contundente chegada é narrada em voz-over. Considerado pela crítica um dos momentos crucias da narrativa, especialmente porque instaura a desordem num ambiente regido pela ordem, a cena foi filmada, segundo o diretor, utilizando uma antiga máquina conhecida como moviola, a imagem em preto e branco e a música que começa suave, com toques de uma harpa e se intensifica com a batida dos metais à medida que o navio fica mais próximo do porto traduzem a atmosfera de pesadelo e prenunciam os infortúnios que passarão as personagens dali em diante. A primeira vítima de Drácula é a jovem Lucy, que sob o olhar incrédulo de Mina, protagoniza uma tórrida cena de sexo com a criatura que assume as feições de um animal.
O encontro entre Drácula e Mina vai sugerir, através dos recursos utilizados na sua produção, além de uma homenagem ao cinema mudo devido à velocidade acelerada que é mostrada na projeção, a ansiedade do reencontro com a amada. Drácula tem pressa em concretizar seu amor e acabar com a solidão e a tristeza que o perseguem por séculos. Esse encontro define também a proposta de adaptação de Coppola, ou seja, transformar e acrescentar na narrativa gótica de Stoker uma atmosfera de romance e, é com esta postura que o diretor leva a termo o amor de ambos. Após ter sido seduzida por Drácula, Mina finalmente se entrega à paixão, numa cena em que ela, ao perceber a hesitação do conde em transformá-la numa morta-viva, perde a timidez e lança-se no universo das trevas. O êxtase do ato sexual é metaforicamente representado pela troca de sangue entre eles.  A ameaça que a partir daquele momento paira sobre Mina, leva seus amigos a empreenderem uma caçada ao vampiro. E nesse ponto é importante ressaltar a intertextualidade nas cenas de perseguição, que parodiam, de certa forma, os filmes de western americanos, com viagens de trem, perseguições a cavalo a diligências, tiros, mortes e uma mocinha esperando para ser salva.
Na última seqüência do filme em que Mina finalmente liberta Drácula de sua maldição, Coppola interpreta a máxima do amor romântico, ou seja, de que o amor só é realizado após a morte.

Conclusão
O filme de Francis Ford Coppola trabalha principalmente as polaridades, as quais se evidenciam nos jogos de luz e sombra, na luta entre vida e morte e amor e ódio, embalados pela criatividade do cineasta que consegue transformar o mito de Drácula, até então encarado como um monstro na literatura, num ser com características humanas, mostrando que a recriação, enquanto adaptação fílmica, pode mesclar gêneros distintos, num sistema próprio em que tanto as relações intertextuais quanto as técnicas cinematográficas ajudam na construção do sentido da narrativa.

Referências
FILKER, Raul. Mito e paródia: entre a narrativa e o argumento. São Paulo: Cultura Acadêmica Editora, 2000

MCFARLANE, Brian. Novel to Film: an introduction to the theory of adaptation. Oxford: Clarendon Press, 1996.

STAM, Robert. Literature Through Film: realism, magic, and the art of adaptation. Maldeon (USA): Blackwell Publishing, 2005.

______. Literature and Film: a guide to the theory and practice of film adaptation. Maldeon (USA): Blackwell Publishing, 2007.

STOKER, Bran. Dracula. London: Penguim Books, 2007.

Williams, Linda. “Film Bodies: Gender, Genre, and Excess.” In Film Theory and Criticism, edited by Leo Braudy and Marshall Cohen. Oxford: Oxford University Press, 2004.




NOTAS

[1] “Filmic adaptation, in this sense, are hypertexts derived from pre-existing hypotexts which have been  transformed by operations of selection, amplification, concretization, and actualization”
[2] There are such beings as vampires; some of us have evidende that they exist. Even had we not the proof of hour unhappy experience, the teachings and the records of the past give proof enough for sane people [...] The nosferatu do not die like the bee when he sting once. He is only stronger; and being stronger, have yet more power to work evil. This vampire which is amongst us is of himself so strong in person as twenty men; he is of cunning more than mortal, for his cunning be the growth of ages; he have still de aid of necromancy, which is, as his etymology imply, the divination by the dead, and all the dead that he can come nigh to are for him at command; he is brute, [...]; he is devil in callous, and the heart of him is not; he can, within limitations, appear at will when and where, and in any of the forms that are to him; he can, within his range, direct the elements: the storm, the fog, the thunder; he can command all the meaner things: [...]; he can grow and become small; and he can at times vanish and come unknow.  (itálico do autor)
[3] “the words [...] beginning with  the prefix “re” emphasize the recombinant function of adaptation”
[4] “violence, shudder, blood, castration [and] sadomachism”
[5] “emotion, sob, woe [and]  masochism”
[6] “paratextuality” might evoke all those materials close to the text such as posters, trailers, reviews, interviews with the director, and so forth.”





quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Alguns aspectos sobre As mil e uma noites

Paraguassu de Fátima Rocha


Tema: apelo à vida (enredo principal);

Sub-temas: trocas baseadas na confiança, caráter das personagens, traição, os quais estão presentes nas micronarrativas (narrativas dentro da narrativa principal), ou seja, de uma história central em que se destaca a figura de Sherazade, a obra se abre para outras narrativas;

Motivação: exposição cultural;

Narrativa circular: diz respeito a continuidade da narrativa, uma vez que a personagem central (Sherazade) ao retomar histórias anteriores cria através dessas um círculo protetor e escapa do fim trágico que tiveram as outras esposas do rei;

Ponto de vista narrativo: destaca-se a presença de um narrador onisciente (Sherazade) que conduz o fio central da narrativa, prevalecendo, portanto, o seu ponto de vista; mudança de focalização - a narradora dá voz às personagens dos contos que passam a relatar suas próprias experiências;

Narratários: além dos narratários implícitos (leitores), a obra conta com narratários explícitos (Sahriyar e Dinazade) que ouvem as histórias de Sherazade;

Realismo fantástico: está relacionado à presença de seres fantásticos como gênios e fadas comuns na cultura oriental.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A ESTÉTICA DO HORROR: DRACULA, O ROMANCE, DRACULA, O FILME

                                                                                                 Paraguassu de Fátima Rocha

Ao proceder a leitura de uma narrativa, seja ela verbal ou visual, o leitor e/ou espectador deparam-se com elementos estruturais comuns que o auxiliam na construção de sentido do texto. O enredo de um texto ficcional em prosa não se organiza, portanto, sem a presença de um narrador, das personagens e da configuração espaço-temporal. O texto fílmico, igualmente, faz uso de tais elementos, porém para que se realize, conta com recursos específicos da linguagem cinematográfica, tais como: edição, montagem, efeitos visuais e sonoros e enquadramento, entre outros. Considerando-se esses aspectos e a especificidade de cada meio, o romance de Bran Stoker (1897) e o filme de Francis Ford Coppola (1992), Dracula, serão utilizados neste estudo para discutir as características do horror empregadas pelos dois autores.
O que se propõe então é a análise de duas narrativas distintas construídas a partir de olhares diferentes sobre o mesmo tema: o vampirismo – a necessidade imperiosa do sangue como alimento e garantia de vida eterna – e as implicações que isso apresenta no desenvolvimento do conflito dramático. Ao tema central ligam-se dois subtemas, ou seja, os motivos que levam Drácula a atacar Mina Murray. No romance, o principal motivo é a vingança do vampiro contra aqueles que o perseguem: Jonathan Harker, noivo de Mina, e seus amigos “Minha vingança apenas começou. Eu espalho isso através dos séculos e o tempo está ao meu lado”[1] (STOKER, 2007, p. 326); e, no filme o amor eterno pela esposa morta que reencarna em Mina.
Dracula de Stoker é uma coletânea de textos, incluindo diários, cartas, telegramas e relatórios que mantém a tradição do romance gótico, narrado por diferentes vozes e sem a presença um narrador onisciente, iniciado por Matthew Gregory Lewis no ano de l796, com The monk.  No filme de Coppola, a ausência do narrador é suprida pelas técnicas de montagem e edição de imagens, através das quais as sequências são organizadas. Evidentemente que a caracterização fílmica apresenta diferenças com relação à caracterização literária, uma vez que aquela faz uso do movimento das câmeras, a posição dos atores, a mis-en-scéne e a própria câmera, conforme assevera McFarlane: “A câmera, nesse sentido torna-se o narrador, por, por exemplo, focalizar em alguns aspectos da mis-en-scéne, na maneira como os atores olham, movimentam-se, seus gestos, o figurino, ou a maneira como se posicionam em cena ou como eles são fotografados.”[2] (MCFARLANE, 1996, p. 17)
As histórias contadas sob diferentes pontos de vista dão origem a outro elemento comum às narrativas: a focalização. No contexto literário a posição de focalizador cabe a Jonathan e Mina. É através do olhar dele que o leitor toma conhecimento do universo assustador do conde da Transilvânia e das suas trágicas experiências como visitante do castelo, ao mesmo tempo em que tem revelada a existência de sua noiva Mina. Ela, por outro lado, apresenta seus amigos, descreve a sociedade londrina e demonstra vividamente suas expectativas em relação ao casamento com Jonathan.  A alternância da focalização também é visível na produção de Coppola, principalmente nas sequências iniciais, entretanto, com a chegada de Drácula à Inglaterra, esse começa a exercer a função de focalizador, o que se explica pela habilidade que o monstro possui em penetrar na mente das personagens.

 Embora, os textos apresentados obedeçam a uma ordem cronológica, não é possível afirmar que se trata de um romance linear, uma vez que diversos episódios são intercalados e parecem dissonantes com a permanência de Harker no castelo de Drácula, destacando-se entre eles, a doença de Reinfield, a fuga de um lobo do zoológico de Londres, ou ainda os estranhos acontecimentos ocorridos num navio à deriva, por falta da tripulação.  A linearidade, propriamente dita, pode ser percebida apenas no início da narrativa, quando Harker relata os acontecimentos por ele vivenciados.
Já na produção de Coppola, conforme argumenta Waltje (2000, p. 30), as técnicas narrativas refletem diretamente o caráter epistolar do romance de Stoker. Entretanto, por tratar-se de uma narrativa fílmica, as diversas histórias são ligadas pelos recursos próprios da linguagem cinematográfica, tais como: voice-over, legendas, mapas, indicações e conexões visuais, cuja descrição dos diferentes pontos de vista é realçada pelo uso frequente de imagens sobrepostas e técnicas como fade out e fade in. Outro aspecto que caracteriza a diferença entre as narrativas é a circularidade na versão de Coppola.  A sequência final do filme repete a cena inicial em que os dois amantes se encontram em frente ao altar e marca a opção do diretor em acrescentar uma atmosfera romântica ao estilo gótico de Stoker.
Nesse contexto pode-se relacionar as relações espaço-temporais. Enquanto no romance a dimensão temporal é marcada pela data dos documentos e corresponde a aproximadamente sete meses e as transições espaciais se distinguem claramente entre a Inglaterra e a Transilvânia, observado o tempo da narrativa, no filme, por questões naturais, esse processo é acelerado pelas técnicas cinematográficas.
A viagem de Harker à Transilvânia, por exemplo, estende-se por exatos três dias e ocupa treze páginas do romance. Em seu relato, ele descreve os horários, o trajeto, a paisagem e as pessoas, minuciosamente. A uma primeira vista parece querer retardar a ação, mas por tratar-se de uma narrativa que envolve o suspense essa demora é necessária e, para usar os termos de Eco, serve para “indicar que devemos nos preparar para entrar num mundo em que a medida normal do tempo nada conta, um mundo em que os relógios estão quebrados ou liquefeitos como num quadro de Dalí.” (ECO, 1994, p. 75) A mesma passagem no filme, mantendo todos os aspectos descritos pela personagem, dura cerca de dois minutos em função da articulação de efeitos, tais como, projeções e sobreposições de imagens – a sequência tem início com a travessia do trem por um túnel, sugerindo a transposição espaço-temporal que acompanha, de certa forma a velocidade do trem; durante o percurso, as paisagens são mostradas ao fundo enquanto o mapa da região é projetado no rosto de Harker no mesmo instante em ele lê a carta enviada por Drácula, cuja narração é feita em voice-over. O recurso da voice-over é utilizado em diferentes momentos da narrativa fílmica, incluindo o prólogo. A aceleração do tempo da narrativa também é notada na viagem do vampiro para a Inglaterra. Utilizando-se das técnicas de abertura e fechamento da câmara, o deslocamento de Drácula ocorre quase que instantaneamente.
Em ambas as narrativas as personagens têm suas histórias entrelaçadas e são atraídas pelo poder e a força de Drácula, uma criatura impiedosa, cuja tirania vitimiza a todos. O primeiro a sentir o poder maléfico do vampiro é o jovem Jonathan Harker que viaja à Transilvânia para lhe vender propriedades em Londres. Jonathan é noivo de Mina Murray, a segunda vítima da vampirização do conde, a primeira é Lucy Westenra, sua amiga. O perfil das duas personagens é bastante semelhante no romance de Stoker. Ambas pertencem à sociedade vitoriana inglesa do século XVIII, extremamente opressora com relação às mulheres, as quais eram educadas para constituir família e viverem à sombra de seus maridos.  Lucy, embora descrita como uma jovem doce, “Lucy é tão doce e sensível que sente as influências mais intensamente do que qualquer outro”[3] (STOKER, 2007, p. 97), é mais exuberante e carismática, atraindo especialmente a atenção masculina. Mina, ao contrário, mesmo apresentando características psicológicas marcantes, fisicamente, é insossa e suas ações no romance resumem-se em narrar os acontecimentos, o que parodoxalmente a torna a principal responsável pela captura do conde, já que consegue reunir através de seus documentos todas as informações necessárias para que isso se concretize.  Ela representa o modelo da mulher inglesa da era vitoriana: modesta, casta, cheia de princípios morais e principalmente inocente quando se trata das implicações dos acontecimentos à sua volta, como fica claro após o ataque sofrido por sua amiga:

Tudo vai bem, Lucy dormiu até que a acordei, e parece nem ter mudado de lado. A aventura da noite parece não tê-la afetado; ao contrário, parece tê-la beneficiado, já que ela parece melhor esta manhã do que tem estado por semanas. Senti muito que o meu descuido com o alfinete tenha lhe ferido. Na verdade, parece ter sido sério, porque a pele do seu pescoço estava perfurada. [...] Quando me desculpei [...] ela riu, me acariciou e disse que nem ao menos havia sentido aquilo. Felizmente aquilo não deixaria nenhuma cicatriz, já que era tão pequeno.[4] (STOKER, 2007, p. 103)


Nesse ponto, convém lembrar o pensamento de Williams sobre a tendência da literatura do horror e que se estende especialmente ao cinema quando se trata do apelo sexual, ligado segundo a autora, às questões do poder ou a sua ausência. Para Williams (2007, p. 214), essa estrutura relaciona-se ao limites impostos pelo poder patriarcal que determina se a figura feminina pode ser caracterizada como boa ou má. Ela acrescenta ainda, que a “boa” moça, passiva sexualmente, não deseja o prazer que ela recebe, enquanto a moça “má” aprecia esse prazer e por aceitá-lo é normalmente punida. Os filmes de horror, então, “destroem as moças ‘más’, sexualmente ativas, permitindo somente às jovens não sexuais, sobreviverem.” (WILLIAMS, 2007, p. 214)
Essa dicotomia comportamental e suas consequências ficam claras no romance de Stoker, na medida em que Lucy é punida com a morte, enquanto Mina, embora submetida ao vampiro é salva e recompensada pelo seu sofrimento. Coppola, no entanto, explora e transcende essas tendências, recaindo no que Linda Williams denomina de apropriação do poder fálico, ou seja, as boas moças tornam-se, como uma forma de recompensa, marcadamente ativas, na medida em que se apropriam do poder fálico, conforme  observa-se na sequência em que Mina  despede-se do noivo. O recato da jovem cede lugar ao desejo no momento em que ela decide beijar Jonathan ardentemente. Tal comportamento repete-se quando encontra Drácula e mais intensamente quando, diante da hesitação do vampiro em transformá-la em morta-viva, toma a iniciativa.
As descrições acima inserem-se no contexto das histórias de horror que fazem parte do imaginário popular desde as eras mais remotas, provocando no leitor um profundo efeito de estranhamento que se traduz por calafrios, tensões e sentimentos de prazer mórbido. Um desses momentos se traduz através do relato de Harker:

De repente, a nossa esquerda, vi uma chama azul flamejante. No mesmo instante, o cocheiro também a avistou; ele imediatamente examinou os cavalos e, pulando para o chão, desapareceu na escuridão. Eu não sabia o que fazer. [...] Eu acho que devo ter caído no sono e permaneci sonhando durante o incidente, porque isso se repetiu inúmeras vezes, e agora, recordando, isso se assemelha a um terrível pesadelo.[5] (STOKER, 2007, p. 19)

Ao longo do tempo, esses tipos de narrativa sofreram inúmeras modificações, mas não perderam algumas de suas características únicas e talvez por essa razão figurem como narrativas literárias que ganharam força a partir do século XVIII com seus seres espectrais e demoníacos habitando castelos antigos e envolvidos por uma atmosfera de mistério e escuridão. Lovecraft (2007, p. 17) argumenta que esse tipo de narrativa necessita de “Uma certa atmosfera inexplicável e empolgante de pavor de forças externas precisa estar presente; e deve haver um indício, expresso com seriedade e dignidade condizentes com o tema, daquela mais terrível concepção do cérebro humano [..]”. Ou seja, a atmosfera proposta pelo autor ao tratar do que ele denomina de horror cósmico transcende o medo convencional, provocada por agentes externos e leva o sujeito a confrontar-se com sua própria interioridade.  A narrativa fílmica, por outro lado, além de contar com as características propostas por Lovecraft, apresenta, de acordo com Linda Williams (2005, p. 219), um determinado grau de violência e sangue que incita o medo e conduz o público ao êxtase.
Dracula de Stoker marca uma nova fase do horror na literatura ocidental e firma-se como o primeiro romance gótico de real valor do gênero, apresentando características essenciais do horror cósmico proposto por Lovecraft, que para o autor consistem em:

[...] antes de tudo, do castelo gótico com sua antiguidade espantosa, vastas distâncias e ramificações, alas desertas e arruinadas, corredores úmidos catacumbas ocultas insalubres e uma galáxia de fantasmas e lendas apavorantes como núcleo de suspense e pavor demoníaco. Incluía também, além disso, o nobre tirânico e perverso como vilão; a heroína santa; [...] o herói valoroso e sem mácula; [...] luzes estranhas, alçapões úmidos, lâmpadas apagadas, embolorados manuscritos ocultos, dobradiças rangentes, cortinas se mexendo e tudo o mais. (LOVECRAFT, 2007, p. 28)

A atmosfera de horror e suspense tem início no romance de Stoker quando Jonathan Harker dirige-se ao castelo de Drácula. Durante a viagem, o jovem se vê diante de acontecimentos que escapam à sua compreensão. Primeiro, o horror expresso no olhar e nas atitudes dos aldeões quando são informados que está indo ao castelo do conde, seguidos por avisos para que tome cuidado, além dos sinais de persignação e o amuleto que recebe das mãos de um deles. Ao se aproximar dos domínios do vampiro, depara-se com chamas azuladas, conforme descrito acima, que se acendem ao longo do caminho, além dos animais que o seguem durante todo o percurso.
A particularização da atmosfera de terror descrita por Lovecraft ganha forma no texto literário através da caracterização do ambiente e na ambientação e, no cinema, pela mis-en-scéne. Entendendo-se as duas últimas como a maneira pela qual o ambiente é construído pelo organizador da narrativa. Em Drácula de Stoker, o clima de tensão se estabelece quando Harker aproxima-se do castelo e fica espantado com o que vê, declarando que sentira medo e ficara cheio de dúvidas enquanto esperava para ser recebido. O encontro com o conde aumenta sua apreensão, principalmente pelo aspecto sinistro da figura à sua frente. O embate entre ambos ocorre quando Jonathan é “convidado” a permanecer no castelo e percebe que se tornara prisioneiro do conde. A descrição minuciosa da morada do conde servirá de apoio para a construção da mis-en-scéne na produção de Coppola, especialmente da sala em que Harker é recebido. A câmera mostra uma sala sem nenhum requinte com um mobiliário consumido pelo tempo e iluminada por luzes de velas que parecem estar ali há séculos, o que certamente contribui para maximizar o quadro de terror vivido pela personagem.
Jonathan experimentará outros momentos de igual tensão enquanto estiver aprisionado no castelo, entretanto a atmosfera de horror atinge o seu ápice no momento em que o vampiro, já na Inglaterra, investe contra a amiga de Mina, Lucy Westenra, conforme essa relata em um memorando. Lucy é acordada por um bater de asas em sua janela e assustada busca por ajuda. Sua mãe percebendo que a filha não conseguira dormir vem lhe fazer companhia e nesse momento as batidas se intensificam na janela.

Em seguida um uivo baixo vindo do jardim e pouco depois uma batida na janela, e uma porção de estilhaços de vidro espalhados pelo chão.  A cortina de janela movimentou-se com o forte vento que penetrou no quarto, e na abertura da janela a cabeça de um lobo imenso, esquelético e cinza. Mamãe gritou de pavor [...] e agarrou-se fortemente em qualquer coisa que pudesse ajudá-la. Entre outras coisas, à guirlanda de flores que o Dr. Van Helsing insistiu em me fazer usar no pescoço, arrancando-a de mim. Por um segundo ou dois ela sentou-se, apontando para o lobo, da sua garganta partiu um estranho som, um murmúrio horrível, e ela caiu. [...] Mantive meus olhos fixos na janela, mas o lobo afastou-se e uma miríade de partículas  pareceu entrar pela janela quebrada. [...] O que posso fazer? [...] Estou sozinha com a morte.[6] (STOKER, 2007, p. 154-5)

           
 No romance de Stoker, em que tanto o leitor quanto as personagens são envolvidas pelo clima de mistério e caminham desorientados ao longo da narrativa, as palavras de Lucy prenunciam o seu destino: estar sozinha com a morte, lembrando que a morte é outro elemento recorrente nas histórias de horror.  A personagem, inconscientemente percebe que algo estranho está por lhe acontecer, mas desconhece a origem do mal. Suas palavras traduzem o mito da morta-viva e somente mais tarde, já vampirizada, ao tentar atacar seu noivo, Arthur, ela descobre no que havia se transformado, conforme relata seu médico: “Instantes depois de abrir os olhos com toda a delicadeza, movimentando suas mãos finas e pálidas, pegou as mãos de Van Helsing, e as beijou. [...] ‘Meu verdadeiro amigo, e dele! Oh, proteja-o, e dê-me a paz!”[7] (STOKER, 2007, p. 172). A paz solicitada por Lucy, apenas pode ser alcançada pelos vampiros mediante um ritual violento e coberto de sangue, que inclui uma estaca sendo arremetida em seu coração e o corte de sua cabeça.
A doença de Lucy, motivada pelo ataque do vampiro, vai aproximar todas as personagens, que em função do amor e da amizade que nutrem pela jovem desempenham papel importante nas duas narrativas. Primeiro, na tentativa da salvá-la e depois na caçada ao monstro. Enquanto estava doente e é atendida por Van Helsing, ela recebe o sangue dos seus três apaixonados, Dr. Seward, Quincey Morris e Arthur Holmwood, seu noivo. O sangue na obra Stoker, além de relacionar-se ao simbolismo da vida eterna, também assume um caráter metafórico para a sexualidade. Isso fica claro na cena do filme de Coppola em que Drácula e Mina finalmente concretizam o ato da vampirização. A troca de sangue entre eles sugere o prazer sexual. No momento em que Drácula entra no quarto de Mina, ainda não materializado, a câmera percorre o corpo da jovem, como se a acariciasse, ao que ela responde com movimentos sensuais e cheios de desejo. A consumação do ato é sugerida pelo abraço terno entre os dois amantes após alimentarem-se do sangue um do outro. Destaque-se que essa sequência é o resultado da aproximação das duas personagens durante o desenvolvimento da narrativa fílmica. O encontro dos dois ocorre num café, circundado por uma atmosfera envolvente e bastante sedutora, marcada por constantes close-ups focalizando os olhos de Mina e Drácula e especialmente os lábios da jovem, criando um clima sensual e sugerindo a intimidade do casal.
A introdução da história de amor entre Drácula e Mina é a principal mudança no enredo criado por Bran Stoker, que em sua concepção original apresentou a longa genealogia de Drácula, além de estabelecer o contraste entre a moralista sociedade inglesa e a sociedade onde o vampiro havia nascido – a Transilvânia – através de fatos e figuras locais. O romance de Stoker apresenta também uma crítica à falta de habilidade de sobrevivência de Drácula, isolado da civilização e à própria modernidade que conduz à perda de valores ancestrais. Tais valores são  resgatados por Van Helsing para deter o avanço da criatura, como por exemplo, a guirlanda de alho colocada ao redor do pescoço de Lucy, cuja crença remonta ao período medieval. O cientista recorre também aos métodos utilizados por Drácula, como a hipnose, para penetrando em sua mente acompanhar seus passos e destruí-lo. Há um contraste entre o mistério que mostra-se de maneira irracional, folclórica e não natural e a ciência dominada por Van Helsing expressa por meio da racionalidade, da naturalidade e a constante busca pela cura das doenças provocadas também pelo poder maléfico do vampiro.
Se o diretor de Dracula optou por acrescentar uma história de amor entre o vampiro e a mocinha, Stoker contabilizou em sua obra o amor fraterno e a amizade sincera capazez de vencer todos os reveses e permanecerem intactos mesmo com a passagem do tempo, como declara Van Helsing em nota no final do livro, escrita por Jonathan Harker: “[...] não precisamos que ninguém acredite em nós! Esse menino um dia saberá o quão nobre e corajosa sua mãe é. Ele já conhece sua doçura e seus cuidados; mais tarde entenderá como alguns homens tanto a amaram e os desafios que enfrentaram por sua causa.”[8] (STOKER, 2007, p. 402)
Independente das características que se queira aplicar às narrativas de Stoker e Coppola e sabendo-se que esses textos ora convergem em termos estruturais e ora divergem na construção de sentido, as duas se sobressaem na categoria do horror, à medida que tanto leitores quanto espectadores são envolvidos por uma aura de suspense e medo que lhes proporciona o efeito catártico.


REFERÊNCIAS.

Bram Stoker’s Dracula. Dir. Francis Ford Coppola. Columbia Tristar, 1992.
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das
Letras, 1994.
LOVECRAFT, Howard Phillips. O horror sobrenatural em literatura. (trad.) Celso
Paciornik. São Paulo: Iluminuras, 2007.
MCFARLANE, Brian. Novel to Film. An introduction to the theory of adaptation.
Oxford: Claredon Press, 1996.
STOKER, Bran. Dracula. London: Penguin, 2007.
WALTJE, Jörg. “Filming Dracula: vampires, genre, and cinematography.” Journal of
Dracula Studies 2 (2000).
WILLIAMS, Linda. “Film Bodies: Gender, Genre, and Excess.” In: Film Theory and Criticism, edited by Leo Braudy and Marshall Cohen. Oxford: Oxford University Press, 2004.

Notas.



[1] My revenge is just began! I spread it over the centuries, and time is on my side. (Todas as traduções apresentadas neste trabalho, são traduções livres da autora.
[2] The camera in this sense becomes the narrator by, for instance, focusing on such aspects of mise-en-scene as the way actors look, move, gesture, or are costumed, or on the ways in which they are positioned in a scene or on how they are photographed.
[3] Lucy is so sweet and sensitive that she feels the influences more acutely than other people do.
[4] All goes well. Lucy slept till I woke her, and seemed not to have even changed her side; on the contrary, it has benefited her, for she looks better this morning than she has done for weeks. I was sorry to notice that my clumsiness with the safety-pin hurt her. Indeed, it might be serious, for the skin of her throat was pierced. […]. When I apologized […], she laughed and petted me, and said she did not even feel it. Fortunately it cannot leave a scar, as it is so tiny.
[5] Suddenly, away on our left, I saw a faint flickering blue flame. The driver saw it at the same moment; he at once checked the horses and, jumping to the ground, disappeared into the darkness. […] I think I must have fallen asleep and kept dreaming of the incident, for it seemed to be repeated endlessly, and now looking back, it is a sort of awful nightmare.
[6] After a while there was the howl again out in the shrubbery, and shortly after there was a crash at the window, and a lot of broken glass was hurled on the floor. The window blind blew back with the wind that rushed in, and in the aperture of the broken panes there was the head of a great, gaunt grey wolf. Mother cried out in a fright, […] and clutched wildly at anything that would help her. Amongst other
things, she clutched the wreath of flowers that Dr Van Helsing insisted on my wearing around my neck, and tore it away from me. For a second or two she sat up, pointing at the wolf, and there was a strange and horrible gurgling in her throat; then she fell over, […]. I kept my eyes fixed at the window, but the wolf drew his head back and a whole myriad of little specks seemed to come blowing in through the broken window. […] What am I to do? […] I am alone. […] Alone with the dead!
[7] Very shortly after she opened her eyes in all their softness and putting out her poor pale, thin hand, took Van Helsing´s […] drawing it to her, she kissed it. […] ‘My true friend, and his! Oh, guard him, and give me peace!’
[8] We ask none to believe us! This boy will some day know what a brave and gallant woman his mother is. Already he knows her sweetness and loving care; later on he will understand how some men so loved her, thad they did dare much for her sake.”

 * Artigo publicado no I Simpósio Nacional de Grupos de Pesquisa em Estudos Literários, Maringá/2009.


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

OPERADORES DA NARRATIVA EM PROSA


Operadores da Leitura

         Movimentos relacionados ao gênero:
            - introdução
            - desenvolvimento
            - conclusão
            -----
            - in ultima res
            - in media res
            - ausência de introdução ou conclusão definida

Narrativa

         Fábula (história) e trama (enredo)
            - fatos anunciados pela narrativa
            - trabalho de criação do escritor, escolha de elementos textuais > construção de sentido
            - identificação da história narrada, síntese da história ou gênero
            - intriga

História narrada

Formalistas russos
- Fábula e trama
New criticism
- Estória e plot
Narratologia (Genette)
- diegese
Todorov e Chatman
- história e discurso
Barthes
- Récit e narração

Estrutura arquitetônica

-         Linear / cronológica
-         Não linear / multilinear (entrelaçamento de narrativas / rizomática
-         Episódica / fragmentada
-         Narrativa dentro da narrativa
-         Circular

Personagens

         Segundo a importância no conflito dramático:
            - principal e secundária
         Segundo o grau de densidade psicológica e ações:
            - Plana: grau baixo
            - Tipo: identificada pela categoria social
            - estereótipo: acumulação excessiva de signos que caracterizam determinada categoria social
            - Plana com tendência a redonda: grau mediano
                        - não é previsível
            - Redonda: grau alto
                        - mais complexa
                        - não redutível a uma categoria social

Narrador

         Genette (1979)
            - heterodiegético: não participa da história narrada
            - homodiegético: participa da história narrada
            - autodiegético: narra a sua própria      história
         Nível da diegese construída por sua narrativa
            - extradiegético: narração externa
            - intradiegético: narrativa secundária
            - hipodiegético/metadiegético: sua narrativa      se insere na narrativa principal (narrativa dentro da narrativa)

Focalização

         cena: representação do diálogo das personagens, discurso direto, efeito de proximidade entre o leitor e a história
         sumário: exposição dos eventos que caracterizam a narrativa, discurso indireto, afastamento entre leitor e a história

Foco narrativo – ponto de vista

         Friedman (1955)
- “autor” onisciente intruso: extrapola os limites de tempo e espaço, minimiza a voz das personagens
- narrador onisciente neutro: 3ª. pessoa, descrição e caracterização das personagens, ausência de instruções e comentários
            - “eu” como testemunha: 1ª. pessoa, visão limitada
- narrador protagonista: 1ª. pessoa, narra seus sentimentos, pensamentos e percepções
- onisciência seletiva múltipla: discurso indireto livre, eliminação da figura do narrador, multiplicidade do ângulo de visão
            - onisciência seletiva: personagem central
            - modo dramático: predomínio da cena, discurso direto, gênero dramático
            - câmera: eliminação do “autor” e do narrador, neutralidade

Outros elementos

         Tema (assunto central), motivos (definem-se a partir da ação das personagens), motivação (modo como o tema é trabalhado)
         Nó (interrupção), clímax (auge), desfecho (resolução)

Espaço

         ambiente: atmosfera que se estabelece entre as personagens
         ambientação: modo como o ambiente é construído pelo narrador
            - franca: produzida por meio do discurso do narrador heterodiegético
            - reflexa: produzida através da focalização das personagens
            - dissimulada ou oblíqua: efeito de sugestão

Tempo

         Objetivo (cronológico)
         Subjetivo (psicológico)
            - monólogo interior: diálogo da personagem consigo mesma, questionamentos
            - análise mental: vazão aos pensamentos
            - fluxo de consciência: liberação de pensamentos, emoções, idéias, etc

Tempo da narração

         Ordem: anacronias
            - in media res
            - in ultima res
            - analepses
            - prolepses

         Duração:

            - cena – coincidência entre acontecimentos e fatos narrados
            - sumário – incongruência entre os acontecimentos e o relato das personagens
            - elipse – exclusão de detalhes
            - pausa descritiva – inserção de descrições
            - digressão – introdução de comentários



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SEIS PASSEIOS PELOS BOSQUES DA FICÇÃO – UMBERTO ECO (RESUMO)


Paraguassu de Fátima Rocha

Capítulo 1. Entrando no Bosque.
Leitor:
- ... é um ingrediente fundamental não só no processo de contar uma história, como também da própria história. (p. 7)
 EMPÍRICO:
- pode ler de várias formas e não existe lei que determine como deve ler, porque em geral utilizam o texto como receptáculo para suas paixões, as quais podem ser exteriores ao texto ou provocadas pelo próprio texto. 14  (corre atrás da própria experiência – memória particular).
MODELO:
- disposto a acompanhar uma história que não o envolve pessoalmente – uma espécie de tipo ideal que o texto não só prevê como colaborador, mas ainda procura criar. 15
- um conjunto de instruções textuais, apresentadas pela manifestação linear do texto precisamente como um conjunto de frases ou de outros sinais. 22
- o leitor recebe o privilégio de estabelecer um “ponto de vista” – significado do texto. (Iser)
- o leitor não só figura como integrante e colaborador do texto [...] ele nasce com o texto, sendo o sustentáculo da estratégia de interpretação [...] desfruta apenas a liberdade que o texto lhes concede (ECO) 22
- há um leitor modelo para cada tipo de texto e de cada um deles o texto espera um tipo diferente de cooperação.

Texto:
- Qualquer narrativa de ficção é necessária e fatalmente rápida porque, ao construir um mundo que inclui uma multiplicidade de acontecimentos e de personagens, não pode dizer tudo sobre esse mundo. (p. 9) – [o leitor preenche as lacunas do texto] e é obrigado a optar o tempo todo (p. 12)
- a narrativa de vanguarda muitas vezes tentou não só frustrar nossas expectativas enquanto leitores, como ainda criar leitores que esperam ter inteira liberdade de escolha em relação ao livro que estão lendo. 14
- o texto apresenta pistas e cabe ao leitor desvendar
Narrador:
- às vezes quer nos deixar livres para imaginarmos a continuação da história. (p. 12)

Autor:
- o autor quer que passemos o resto da vida imaginando o que aconteceu (p.13)
 MODELO:
- a voz que nos fala afetuosamente (ou imperiosamente, ou dissimuladamente), que nos quer ao seu lado. Essa voz se manifesta como uma estratégia narrativa, um conjunto de instruções nos são dadas passo a passo e que devemos seguir quando decidimos agir como leitor-modelo. 21
- se revela nos diferentes tipos de texto para nos dizer que as descrições apresentadas devem constituir um estímulo para nossas reações físicas. 23
- o autor modelo e o leitor modelo são entidades que se tornam claras uma para a outra somente no processo de leitura, de modo que uma cria a outra. 30
Pergunta:
Baseado nas críticas feitas por Eco ao ensaio de Poe “A filosofia da composição” (p. 50)  em que esse último desvenda os segredos da composição de seu poema “O corvo” e à interpretação alquímica dada à fábula “Chapeuzinho Vermelho” (p. 97-98), opine sobre a profusão das diferentes análises críticas e literárias atribuídas ao leitor modelo.

Capítulo 2. Os bosques de Loisy

Texto:
Há duas maneiras de percorrer um texto narrativo
1)      leitor modelo de primeiro nível – final da história
2)      leitor modelo de segundo nível – se pergunta que tipo de leitor a história deseja que ele se torne e que quer descobrir precisamente como o autor-modelo faz para guiar o leitor. 33
Para identificar o autor-modelo (pede a colaboração do leitor e nem sempre são muito explícitos) é preciso ler o texto muitas vezes e algumas histórias incessantemente. 33
Tempo:
- quando nos inteiramos de uma história que se refere a um tempo narrativo 1 (o tempo em que os fatos narrados ocorrem, o qual pode ser duas horas atrás ou mil anos atrás), o narrador e as personagens reportar-se  a algo que aconteceu antes dos fatos narrados. Ou podem aludir a alguma coisa eu, na época desses fatos, estava por ocorrer e era esperada.
- flashback parece reparar um esquecimento do autor – flashforward constitui uma manifestação de impaciência narrativa (GENETTE, 36)
- constantemente se é obrigado a voltar atrás algumas páginas para descobrir onde se está, no presente ou no passado relembrado. (PROUST) E se de fato voltamos atrás, percebemos que todo o discurso narrativo está entremeado de referências temporais. Na primeira leitura elas são invisíveis, porém na segunda se evidenciam plenamente. 44
A voz que nos fala de ligações temporais talvez queira nos fazer perder nossa noção de tempo, mas também nos estimula a reconstituir a seqüência exata dos acontecimentos. 45

Capítulo 3. Divagando pelo bosque

Tempo:
- o tempo narrativo também pode ser lento, cíclico ou imóvel (CALVINO) 55
Técnicas adotas para diminuir ou aumentar a velocidade
- inferências: a fim de prever o desenvolvimento da história o leitor se volta para suas próprias experiências de vida ou seu conhecimento de outras histórias. 56
Ex.: perguntas ao leitor: O que fazer?
- previsões: o processo de fazer previsões constitui um aspecto emocional necessário da leitura que coloca em jogo, esperanças e medos, bem como a tensão resultante de nossa identificação com o destino das personagens. 58
Formas:
- tempo da história: faz parte do conteúdo da história. Ex. 1000 anos
- tempo do discurso: escrever/ler – bastante curto. 60
O tempo do discurso é o resultado de uma estratégia textual que interage com a resposta dos leitores e lhes impõe o tempo de leitura. 63
Na ficção escrita é difícil estabelecer o tempo do discurso e o tempo da leitura; entretanto, não há dúvida de que às vezes uma grande quantidade de descrição, uma abundância de detalhes mínimos podem ser tanto um artifício de representação quanto uma estratégia para diminuir a velocidade do tempo de leitura até o leitor entrar no ritmo que o autor julga necessário para a fruição do texto. 65
- tempo de trepidação: retarda um final dramático e visa não só manter a atenção do espectador/leitor ingênuo do primeiro nível, mas também estimular a fruição estética do espectador/leitor do segundo nível. 72
- tempo de alusão: demora na descrição – visa não tanto diminuir o ritmo da ação, impelir o leitor a empolgantes passeios inferenciais, quanto indicar que devemos nos preparar para entrar num mundo em que a medida normal do tempo nada conta, um mundo em que os relógios estão quebrados. 75
- ritmo: aceleração/desaleração
Ficção:
- uma obra de ficção descreve pessoas em ação, o leitor  quer saber como essas ações se desenvolvem. 55
- se algo importante ou absorvente está ocorrendo, temos que cultivar a arte da demora. 56

Capítulo 4. Bosques possíveis
- O leitor precisa aceitar tacitamente um acordo ficcional – suspensão de descrença (COLERIDGE). O leitor tem de saber o que está sendo narrado é uma história imaginária, mas nem por isso deve pensar que o escritor está contando mentiras. O autor simplesmente finge dizer a verdade (SEARLE). Aceitamos o acordo ficcional e fingimos que o que é narrado de fato aconteceu. 81
- a obra de ficção nos encerra nas fronteiras de seu mundo e, de uma forma ou outra nos faz leva-lo a sério. 84
- para nos impressionar, nos perturbar, nos assustar ou nos comover até com o mais impossível dos mundos, contamos com nosso conhecimento do mundo real. Em outras palavras, precisamos adotar o mundo real como pano de fundo. [...] no entanto, devemos entender que tudo aquilo que o texto não diferencia explicitamente do que existe no mundo real corresponde às leis e condições do mundo real. 89
- os leitores precisam saber uma porção de coisas a respeito do mundo real para presumi-lo como o pano de fundo correto do mundo ficcional. [...] na medida em que o universo da ficção nos conta a história de algumas poucas personagens em tempo e local bem definidos, podemos vê-lo como um pequeno mundo infinitamente mais limitado que o mundo real. [...] e na medida em que acrescenta indivíduos, atributos e acontecimentos ao conjunto do universo real (que lhe serve de pano de fundo) podemos considera-lo maior que o mundo de nossa experiência.
- os mundos ficcionais são parasitas do mundo real, porém são com efeito “pequenos mundos” que delimitam a maior parte de nossa competência do mundo real e permitem que nos concentremos num mundo finito, fechado, muito semelhante ao nosso, embora ontologicamente mais pobre. Como não podemos ultrapassar suas fronteiras, somos levados a explorá-lo em profundidade. 91
- ler ficção significa jogar um jogo através do qual damos sentido à infinidade d coisas que aconteceram, estão acontecendo ou vão acontecer no mundo real. Ao lermos uma narrativa, fugimos da ansiedade que nos assalta quando tentamos dizer algo de verdadeiro a respeito do mundo. 93
- as afirmações ficcionais são verdadeiras dentro da estrutura do mundo possível de determinada história. 94
- no que se refere ao mundo real, a verdade é o critério mais importante  e tendemos a achar que a ficção descreve um mundo que temos de aceitar tal como é, em confiança. Mesmo que no mundo real, todavia o princípio da confiança é tão importante quando o princípio da verdade. 95
- o modo como aceitamos a representação do mundo real pouco difere do modo como aceitamos a representação dos mundos ficcionais. 96
- lemos romances porque nos dão a confortável sensação de viver em mundos nos quais a noção de verdade é indiscutível, enquanto o mundo real parece um lugar mais traiçoeiro. 97
- é possível inferir dos textos coisas que eles não dizem explicitamente – e a colaboração do leitor se baseia nesse princípio - , mas não se pode fazê-los dizer o contrário do que disseram. 98
- mas para decidir o que é verdadeiro ou falso no mundo real, tenho que tomar algumas decisões difíceis referentes a minha confiança na comunidade. [...] no entanto, até um mundo ficcional pode ser tão traiçoeiro quanto mundo real. Seria um ambiente muitíssimo confortável se tivesse de lidar apenas com entidades e eventos ficcionais. [...] o que acontece quando o leitor traz informações erradas a respeito do mundo real, não age como um leitor-modelo, e as conseqüências de seu erro constituem um assunto particular e empírico.
- o perfil do leitor-modelo é desenhado pelo texto e dentro do texto. 99
- espera-se que os autores não só tomem o mundo real por pano de fundo de sua história, como ainda intervenham  constantemente para informar aos leitores os vários aspectos do mundo real que eles talvez desconheçam. 100
- os leitores deviam fingir acreditar que a informação ficcional era verdadeira e ao mesmo tempo aceitar como verdadeira no mundo real a informação suplementar fornecida pelo autor. 101

Capítulo 5. O estranho caso da rue Servandoni

- a história verdadeira de uma construção ficcional – tem muitas morais. Primeiro mostra que somos constantemente tentados a dar forma à vida através de esquemas narrativos . [...] em cada declaração que envolve nomes próprios ou descrições definidas o leitor ou ouvinte deve aceitar a existência da entidade sobre a qual se afirma alguma coisa. 105
- suspender a descrença  e aceitar um texto como discurso ficcional porque é a única maneira de atribuir uma forma de existência à entidade postulada pela declaração, em qualquer mundo que seja. 106
- um dos acordos básicos de todo romance histórico é o seguinte: a história pode ter um sem-número de personagens imaginárias, porém o restante deve corresponder mais ou menos ao que aconteceu naquela época no mundo real. 112
- o que realmente nos interessa não é a ontologia dos mundos possíveis e seus habitantes, e sim a posição do leitor.
- como leitores empíricos sabemos muito bem que lobo não fala, mas como leitores modelos temos de concordar em viver num mundo em que os lobos falam. 113
- preocupação com detalhes sem importância.
- leitor capaz de descobrir alusões e ligações semânticas até onde o autor empírico não as percebeu. 115
- cultura universal e intertextualidade. 116
- todo texto ficcional contém uma contradição básica exatamente porque se esforça tanto para fazer o mundo ficcional corresponder ao mundo real.
- sinais temporais funcionam como sinais de trânsito, apagados porém perceptíveis num cruzamento enevoado. 119
- toda mensagem secreta pode ser decifrada, desde que se saiba que é uma mensagem. 122

Capítulo 6. Protocolos ficcionais

- obras literárias que se esforçam para ser tão ambíguas quanto a vida. 123
- projeção da representação na realidade.
- a narrativa natural descreve fatos que ocorreram na realidade (ou que o narrador afirma, mentirosa ou erroneamente, que ocorreram na realidade. 125
- a narrativa artificial é supostamente representada pela ficção, que apenas finge dizer a verdade sobre o universo real ou afirma dizer a verdade sobre um universo ficcional.
- a narrativa artificial é normalmente reconhecida graças ao “paratexto” – ou seja as mensagens externas que rodeiam um texto. Ex. a palavra romance.
- sinal textual (interno) de ficcionalidade mais óbvio: Era uma vez....
- projeção do conteúdo no mundo real. 126
- narrativa artificial é mais complexa que a natural.127
- a ficcionalidade se revela por meio da insistência em detalhes inverificáveis e intrusões introspectivas, pois nenhum relato histórico pode suportar tais efeitos de realidade. 128
- na ficção, as referências precisas ao mundo real são tão intimamente ligadas que, depois de passar algum tempo no mundo do romance e de misturar elementos ficcionais com referências à realidade, como se deve, o leitor já não sabe muito bem como está. O mais comum é o leitor projetar o modelo ficcional na realidade – em outras palavras, o leitor passa a acreditar na existência real de personagens e acontecimentos ficcionais. 131
- levar a sério as personagens de ficção também pode produzir um tipo incomum de intertextualidade: uma personagem de determinada obra ficcional pode aparecer em outra obra ficcional, e, assim, atuar como um sinal de veracidade. 132
- a narratividade é o princípio organizador de todo discurso.
- nosso relacionamento perceptual com o mundo funciona porque confiamos em histórias anteriores. 136
- confiamos num relato anterior quando, ao dizer “eu”, não questionamos que somos a continuação natural de um indivíduo que nasceu naquela determinada hora, dia, ano, local.
- memória individual: nos habilita a relatar o que fizemos ontem.
- memória coletiva: nos conta a história de outro.
- a mistura de memória individual e memória coletiva (histórias de nossos antepassados) prolonga a vida, fazendo-a recuar no tempo, e nos parece uma promessa de imortalidade.
- a ficção nos proporciona a oportunidade de utilizar infinitamente nossas faculdades para perceber o mundo e reconstituir o passado. A ficção tem a mesma função dos jogos. Brincando as crianças aprendem a viver, porque simulam situações em que poderão encontrar como adultos. E é por meio da ficção que nós, adultos, exercitamos nossa capacidade de estruturar nossa experiência passada e presente. 137
- notoriedade do fato através do romance. 140

ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.