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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A ESTÉTICA DO HORROR: DRACULA, O ROMANCE, DRACULA, O FILME

                                                                                                 Paraguassu de Fátima Rocha

Ao proceder a leitura de uma narrativa, seja ela verbal ou visual, o leitor e/ou espectador deparam-se com elementos estruturais comuns que o auxiliam na construção de sentido do texto. O enredo de um texto ficcional em prosa não se organiza, portanto, sem a presença de um narrador, das personagens e da configuração espaço-temporal. O texto fílmico, igualmente, faz uso de tais elementos, porém para que se realize, conta com recursos específicos da linguagem cinematográfica, tais como: edição, montagem, efeitos visuais e sonoros e enquadramento, entre outros. Considerando-se esses aspectos e a especificidade de cada meio, o romance de Bran Stoker (1897) e o filme de Francis Ford Coppola (1992), Dracula, serão utilizados neste estudo para discutir as características do horror empregadas pelos dois autores.
O que se propõe então é a análise de duas narrativas distintas construídas a partir de olhares diferentes sobre o mesmo tema: o vampirismo – a necessidade imperiosa do sangue como alimento e garantia de vida eterna – e as implicações que isso apresenta no desenvolvimento do conflito dramático. Ao tema central ligam-se dois subtemas, ou seja, os motivos que levam Drácula a atacar Mina Murray. No romance, o principal motivo é a vingança do vampiro contra aqueles que o perseguem: Jonathan Harker, noivo de Mina, e seus amigos “Minha vingança apenas começou. Eu espalho isso através dos séculos e o tempo está ao meu lado”[1] (STOKER, 2007, p. 326); e, no filme o amor eterno pela esposa morta que reencarna em Mina.
Dracula de Stoker é uma coletânea de textos, incluindo diários, cartas, telegramas e relatórios que mantém a tradição do romance gótico, narrado por diferentes vozes e sem a presença um narrador onisciente, iniciado por Matthew Gregory Lewis no ano de l796, com The monk.  No filme de Coppola, a ausência do narrador é suprida pelas técnicas de montagem e edição de imagens, através das quais as sequências são organizadas. Evidentemente que a caracterização fílmica apresenta diferenças com relação à caracterização literária, uma vez que aquela faz uso do movimento das câmeras, a posição dos atores, a mis-en-scéne e a própria câmera, conforme assevera McFarlane: “A câmera, nesse sentido torna-se o narrador, por, por exemplo, focalizar em alguns aspectos da mis-en-scéne, na maneira como os atores olham, movimentam-se, seus gestos, o figurino, ou a maneira como se posicionam em cena ou como eles são fotografados.”[2] (MCFARLANE, 1996, p. 17)
As histórias contadas sob diferentes pontos de vista dão origem a outro elemento comum às narrativas: a focalização. No contexto literário a posição de focalizador cabe a Jonathan e Mina. É através do olhar dele que o leitor toma conhecimento do universo assustador do conde da Transilvânia e das suas trágicas experiências como visitante do castelo, ao mesmo tempo em que tem revelada a existência de sua noiva Mina. Ela, por outro lado, apresenta seus amigos, descreve a sociedade londrina e demonstra vividamente suas expectativas em relação ao casamento com Jonathan.  A alternância da focalização também é visível na produção de Coppola, principalmente nas sequências iniciais, entretanto, com a chegada de Drácula à Inglaterra, esse começa a exercer a função de focalizador, o que se explica pela habilidade que o monstro possui em penetrar na mente das personagens.

 Embora, os textos apresentados obedeçam a uma ordem cronológica, não é possível afirmar que se trata de um romance linear, uma vez que diversos episódios são intercalados e parecem dissonantes com a permanência de Harker no castelo de Drácula, destacando-se entre eles, a doença de Reinfield, a fuga de um lobo do zoológico de Londres, ou ainda os estranhos acontecimentos ocorridos num navio à deriva, por falta da tripulação.  A linearidade, propriamente dita, pode ser percebida apenas no início da narrativa, quando Harker relata os acontecimentos por ele vivenciados.
Já na produção de Coppola, conforme argumenta Waltje (2000, p. 30), as técnicas narrativas refletem diretamente o caráter epistolar do romance de Stoker. Entretanto, por tratar-se de uma narrativa fílmica, as diversas histórias são ligadas pelos recursos próprios da linguagem cinematográfica, tais como: voice-over, legendas, mapas, indicações e conexões visuais, cuja descrição dos diferentes pontos de vista é realçada pelo uso frequente de imagens sobrepostas e técnicas como fade out e fade in. Outro aspecto que caracteriza a diferença entre as narrativas é a circularidade na versão de Coppola.  A sequência final do filme repete a cena inicial em que os dois amantes se encontram em frente ao altar e marca a opção do diretor em acrescentar uma atmosfera romântica ao estilo gótico de Stoker.
Nesse contexto pode-se relacionar as relações espaço-temporais. Enquanto no romance a dimensão temporal é marcada pela data dos documentos e corresponde a aproximadamente sete meses e as transições espaciais se distinguem claramente entre a Inglaterra e a Transilvânia, observado o tempo da narrativa, no filme, por questões naturais, esse processo é acelerado pelas técnicas cinematográficas.
A viagem de Harker à Transilvânia, por exemplo, estende-se por exatos três dias e ocupa treze páginas do romance. Em seu relato, ele descreve os horários, o trajeto, a paisagem e as pessoas, minuciosamente. A uma primeira vista parece querer retardar a ação, mas por tratar-se de uma narrativa que envolve o suspense essa demora é necessária e, para usar os termos de Eco, serve para “indicar que devemos nos preparar para entrar num mundo em que a medida normal do tempo nada conta, um mundo em que os relógios estão quebrados ou liquefeitos como num quadro de Dalí.” (ECO, 1994, p. 75) A mesma passagem no filme, mantendo todos os aspectos descritos pela personagem, dura cerca de dois minutos em função da articulação de efeitos, tais como, projeções e sobreposições de imagens – a sequência tem início com a travessia do trem por um túnel, sugerindo a transposição espaço-temporal que acompanha, de certa forma a velocidade do trem; durante o percurso, as paisagens são mostradas ao fundo enquanto o mapa da região é projetado no rosto de Harker no mesmo instante em ele lê a carta enviada por Drácula, cuja narração é feita em voice-over. O recurso da voice-over é utilizado em diferentes momentos da narrativa fílmica, incluindo o prólogo. A aceleração do tempo da narrativa também é notada na viagem do vampiro para a Inglaterra. Utilizando-se das técnicas de abertura e fechamento da câmara, o deslocamento de Drácula ocorre quase que instantaneamente.
Em ambas as narrativas as personagens têm suas histórias entrelaçadas e são atraídas pelo poder e a força de Drácula, uma criatura impiedosa, cuja tirania vitimiza a todos. O primeiro a sentir o poder maléfico do vampiro é o jovem Jonathan Harker que viaja à Transilvânia para lhe vender propriedades em Londres. Jonathan é noivo de Mina Murray, a segunda vítima da vampirização do conde, a primeira é Lucy Westenra, sua amiga. O perfil das duas personagens é bastante semelhante no romance de Stoker. Ambas pertencem à sociedade vitoriana inglesa do século XVIII, extremamente opressora com relação às mulheres, as quais eram educadas para constituir família e viverem à sombra de seus maridos.  Lucy, embora descrita como uma jovem doce, “Lucy é tão doce e sensível que sente as influências mais intensamente do que qualquer outro”[3] (STOKER, 2007, p. 97), é mais exuberante e carismática, atraindo especialmente a atenção masculina. Mina, ao contrário, mesmo apresentando características psicológicas marcantes, fisicamente, é insossa e suas ações no romance resumem-se em narrar os acontecimentos, o que parodoxalmente a torna a principal responsável pela captura do conde, já que consegue reunir através de seus documentos todas as informações necessárias para que isso se concretize.  Ela representa o modelo da mulher inglesa da era vitoriana: modesta, casta, cheia de princípios morais e principalmente inocente quando se trata das implicações dos acontecimentos à sua volta, como fica claro após o ataque sofrido por sua amiga:

Tudo vai bem, Lucy dormiu até que a acordei, e parece nem ter mudado de lado. A aventura da noite parece não tê-la afetado; ao contrário, parece tê-la beneficiado, já que ela parece melhor esta manhã do que tem estado por semanas. Senti muito que o meu descuido com o alfinete tenha lhe ferido. Na verdade, parece ter sido sério, porque a pele do seu pescoço estava perfurada. [...] Quando me desculpei [...] ela riu, me acariciou e disse que nem ao menos havia sentido aquilo. Felizmente aquilo não deixaria nenhuma cicatriz, já que era tão pequeno.[4] (STOKER, 2007, p. 103)


Nesse ponto, convém lembrar o pensamento de Williams sobre a tendência da literatura do horror e que se estende especialmente ao cinema quando se trata do apelo sexual, ligado segundo a autora, às questões do poder ou a sua ausência. Para Williams (2007, p. 214), essa estrutura relaciona-se ao limites impostos pelo poder patriarcal que determina se a figura feminina pode ser caracterizada como boa ou má. Ela acrescenta ainda, que a “boa” moça, passiva sexualmente, não deseja o prazer que ela recebe, enquanto a moça “má” aprecia esse prazer e por aceitá-lo é normalmente punida. Os filmes de horror, então, “destroem as moças ‘más’, sexualmente ativas, permitindo somente às jovens não sexuais, sobreviverem.” (WILLIAMS, 2007, p. 214)
Essa dicotomia comportamental e suas consequências ficam claras no romance de Stoker, na medida em que Lucy é punida com a morte, enquanto Mina, embora submetida ao vampiro é salva e recompensada pelo seu sofrimento. Coppola, no entanto, explora e transcende essas tendências, recaindo no que Linda Williams denomina de apropriação do poder fálico, ou seja, as boas moças tornam-se, como uma forma de recompensa, marcadamente ativas, na medida em que se apropriam do poder fálico, conforme  observa-se na sequência em que Mina  despede-se do noivo. O recato da jovem cede lugar ao desejo no momento em que ela decide beijar Jonathan ardentemente. Tal comportamento repete-se quando encontra Drácula e mais intensamente quando, diante da hesitação do vampiro em transformá-la em morta-viva, toma a iniciativa.
As descrições acima inserem-se no contexto das histórias de horror que fazem parte do imaginário popular desde as eras mais remotas, provocando no leitor um profundo efeito de estranhamento que se traduz por calafrios, tensões e sentimentos de prazer mórbido. Um desses momentos se traduz através do relato de Harker:

De repente, a nossa esquerda, vi uma chama azul flamejante. No mesmo instante, o cocheiro também a avistou; ele imediatamente examinou os cavalos e, pulando para o chão, desapareceu na escuridão. Eu não sabia o que fazer. [...] Eu acho que devo ter caído no sono e permaneci sonhando durante o incidente, porque isso se repetiu inúmeras vezes, e agora, recordando, isso se assemelha a um terrível pesadelo.[5] (STOKER, 2007, p. 19)

Ao longo do tempo, esses tipos de narrativa sofreram inúmeras modificações, mas não perderam algumas de suas características únicas e talvez por essa razão figurem como narrativas literárias que ganharam força a partir do século XVIII com seus seres espectrais e demoníacos habitando castelos antigos e envolvidos por uma atmosfera de mistério e escuridão. Lovecraft (2007, p. 17) argumenta que esse tipo de narrativa necessita de “Uma certa atmosfera inexplicável e empolgante de pavor de forças externas precisa estar presente; e deve haver um indício, expresso com seriedade e dignidade condizentes com o tema, daquela mais terrível concepção do cérebro humano [..]”. Ou seja, a atmosfera proposta pelo autor ao tratar do que ele denomina de horror cósmico transcende o medo convencional, provocada por agentes externos e leva o sujeito a confrontar-se com sua própria interioridade.  A narrativa fílmica, por outro lado, além de contar com as características propostas por Lovecraft, apresenta, de acordo com Linda Williams (2005, p. 219), um determinado grau de violência e sangue que incita o medo e conduz o público ao êxtase.
Dracula de Stoker marca uma nova fase do horror na literatura ocidental e firma-se como o primeiro romance gótico de real valor do gênero, apresentando características essenciais do horror cósmico proposto por Lovecraft, que para o autor consistem em:

[...] antes de tudo, do castelo gótico com sua antiguidade espantosa, vastas distâncias e ramificações, alas desertas e arruinadas, corredores úmidos catacumbas ocultas insalubres e uma galáxia de fantasmas e lendas apavorantes como núcleo de suspense e pavor demoníaco. Incluía também, além disso, o nobre tirânico e perverso como vilão; a heroína santa; [...] o herói valoroso e sem mácula; [...] luzes estranhas, alçapões úmidos, lâmpadas apagadas, embolorados manuscritos ocultos, dobradiças rangentes, cortinas se mexendo e tudo o mais. (LOVECRAFT, 2007, p. 28)

A atmosfera de horror e suspense tem início no romance de Stoker quando Jonathan Harker dirige-se ao castelo de Drácula. Durante a viagem, o jovem se vê diante de acontecimentos que escapam à sua compreensão. Primeiro, o horror expresso no olhar e nas atitudes dos aldeões quando são informados que está indo ao castelo do conde, seguidos por avisos para que tome cuidado, além dos sinais de persignação e o amuleto que recebe das mãos de um deles. Ao se aproximar dos domínios do vampiro, depara-se com chamas azuladas, conforme descrito acima, que se acendem ao longo do caminho, além dos animais que o seguem durante todo o percurso.
A particularização da atmosfera de terror descrita por Lovecraft ganha forma no texto literário através da caracterização do ambiente e na ambientação e, no cinema, pela mis-en-scéne. Entendendo-se as duas últimas como a maneira pela qual o ambiente é construído pelo organizador da narrativa. Em Drácula de Stoker, o clima de tensão se estabelece quando Harker aproxima-se do castelo e fica espantado com o que vê, declarando que sentira medo e ficara cheio de dúvidas enquanto esperava para ser recebido. O encontro com o conde aumenta sua apreensão, principalmente pelo aspecto sinistro da figura à sua frente. O embate entre ambos ocorre quando Jonathan é “convidado” a permanecer no castelo e percebe que se tornara prisioneiro do conde. A descrição minuciosa da morada do conde servirá de apoio para a construção da mis-en-scéne na produção de Coppola, especialmente da sala em que Harker é recebido. A câmera mostra uma sala sem nenhum requinte com um mobiliário consumido pelo tempo e iluminada por luzes de velas que parecem estar ali há séculos, o que certamente contribui para maximizar o quadro de terror vivido pela personagem.
Jonathan experimentará outros momentos de igual tensão enquanto estiver aprisionado no castelo, entretanto a atmosfera de horror atinge o seu ápice no momento em que o vampiro, já na Inglaterra, investe contra a amiga de Mina, Lucy Westenra, conforme essa relata em um memorando. Lucy é acordada por um bater de asas em sua janela e assustada busca por ajuda. Sua mãe percebendo que a filha não conseguira dormir vem lhe fazer companhia e nesse momento as batidas se intensificam na janela.

Em seguida um uivo baixo vindo do jardim e pouco depois uma batida na janela, e uma porção de estilhaços de vidro espalhados pelo chão.  A cortina de janela movimentou-se com o forte vento que penetrou no quarto, e na abertura da janela a cabeça de um lobo imenso, esquelético e cinza. Mamãe gritou de pavor [...] e agarrou-se fortemente em qualquer coisa que pudesse ajudá-la. Entre outras coisas, à guirlanda de flores que o Dr. Van Helsing insistiu em me fazer usar no pescoço, arrancando-a de mim. Por um segundo ou dois ela sentou-se, apontando para o lobo, da sua garganta partiu um estranho som, um murmúrio horrível, e ela caiu. [...] Mantive meus olhos fixos na janela, mas o lobo afastou-se e uma miríade de partículas  pareceu entrar pela janela quebrada. [...] O que posso fazer? [...] Estou sozinha com a morte.[6] (STOKER, 2007, p. 154-5)

           
 No romance de Stoker, em que tanto o leitor quanto as personagens são envolvidas pelo clima de mistério e caminham desorientados ao longo da narrativa, as palavras de Lucy prenunciam o seu destino: estar sozinha com a morte, lembrando que a morte é outro elemento recorrente nas histórias de horror.  A personagem, inconscientemente percebe que algo estranho está por lhe acontecer, mas desconhece a origem do mal. Suas palavras traduzem o mito da morta-viva e somente mais tarde, já vampirizada, ao tentar atacar seu noivo, Arthur, ela descobre no que havia se transformado, conforme relata seu médico: “Instantes depois de abrir os olhos com toda a delicadeza, movimentando suas mãos finas e pálidas, pegou as mãos de Van Helsing, e as beijou. [...] ‘Meu verdadeiro amigo, e dele! Oh, proteja-o, e dê-me a paz!”[7] (STOKER, 2007, p. 172). A paz solicitada por Lucy, apenas pode ser alcançada pelos vampiros mediante um ritual violento e coberto de sangue, que inclui uma estaca sendo arremetida em seu coração e o corte de sua cabeça.
A doença de Lucy, motivada pelo ataque do vampiro, vai aproximar todas as personagens, que em função do amor e da amizade que nutrem pela jovem desempenham papel importante nas duas narrativas. Primeiro, na tentativa da salvá-la e depois na caçada ao monstro. Enquanto estava doente e é atendida por Van Helsing, ela recebe o sangue dos seus três apaixonados, Dr. Seward, Quincey Morris e Arthur Holmwood, seu noivo. O sangue na obra Stoker, além de relacionar-se ao simbolismo da vida eterna, também assume um caráter metafórico para a sexualidade. Isso fica claro na cena do filme de Coppola em que Drácula e Mina finalmente concretizam o ato da vampirização. A troca de sangue entre eles sugere o prazer sexual. No momento em que Drácula entra no quarto de Mina, ainda não materializado, a câmera percorre o corpo da jovem, como se a acariciasse, ao que ela responde com movimentos sensuais e cheios de desejo. A consumação do ato é sugerida pelo abraço terno entre os dois amantes após alimentarem-se do sangue um do outro. Destaque-se que essa sequência é o resultado da aproximação das duas personagens durante o desenvolvimento da narrativa fílmica. O encontro dos dois ocorre num café, circundado por uma atmosfera envolvente e bastante sedutora, marcada por constantes close-ups focalizando os olhos de Mina e Drácula e especialmente os lábios da jovem, criando um clima sensual e sugerindo a intimidade do casal.
A introdução da história de amor entre Drácula e Mina é a principal mudança no enredo criado por Bran Stoker, que em sua concepção original apresentou a longa genealogia de Drácula, além de estabelecer o contraste entre a moralista sociedade inglesa e a sociedade onde o vampiro havia nascido – a Transilvânia – através de fatos e figuras locais. O romance de Stoker apresenta também uma crítica à falta de habilidade de sobrevivência de Drácula, isolado da civilização e à própria modernidade que conduz à perda de valores ancestrais. Tais valores são  resgatados por Van Helsing para deter o avanço da criatura, como por exemplo, a guirlanda de alho colocada ao redor do pescoço de Lucy, cuja crença remonta ao período medieval. O cientista recorre também aos métodos utilizados por Drácula, como a hipnose, para penetrando em sua mente acompanhar seus passos e destruí-lo. Há um contraste entre o mistério que mostra-se de maneira irracional, folclórica e não natural e a ciência dominada por Van Helsing expressa por meio da racionalidade, da naturalidade e a constante busca pela cura das doenças provocadas também pelo poder maléfico do vampiro.
Se o diretor de Dracula optou por acrescentar uma história de amor entre o vampiro e a mocinha, Stoker contabilizou em sua obra o amor fraterno e a amizade sincera capazez de vencer todos os reveses e permanecerem intactos mesmo com a passagem do tempo, como declara Van Helsing em nota no final do livro, escrita por Jonathan Harker: “[...] não precisamos que ninguém acredite em nós! Esse menino um dia saberá o quão nobre e corajosa sua mãe é. Ele já conhece sua doçura e seus cuidados; mais tarde entenderá como alguns homens tanto a amaram e os desafios que enfrentaram por sua causa.”[8] (STOKER, 2007, p. 402)
Independente das características que se queira aplicar às narrativas de Stoker e Coppola e sabendo-se que esses textos ora convergem em termos estruturais e ora divergem na construção de sentido, as duas se sobressaem na categoria do horror, à medida que tanto leitores quanto espectadores são envolvidos por uma aura de suspense e medo que lhes proporciona o efeito catártico.


REFERÊNCIAS.

Bram Stoker’s Dracula. Dir. Francis Ford Coppola. Columbia Tristar, 1992.
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das
Letras, 1994.
LOVECRAFT, Howard Phillips. O horror sobrenatural em literatura. (trad.) Celso
Paciornik. São Paulo: Iluminuras, 2007.
MCFARLANE, Brian. Novel to Film. An introduction to the theory of adaptation.
Oxford: Claredon Press, 1996.
STOKER, Bran. Dracula. London: Penguin, 2007.
WALTJE, Jörg. “Filming Dracula: vampires, genre, and cinematography.” Journal of
Dracula Studies 2 (2000).
WILLIAMS, Linda. “Film Bodies: Gender, Genre, and Excess.” In: Film Theory and Criticism, edited by Leo Braudy and Marshall Cohen. Oxford: Oxford University Press, 2004.

Notas.



[1] My revenge is just began! I spread it over the centuries, and time is on my side. (Todas as traduções apresentadas neste trabalho, são traduções livres da autora.
[2] The camera in this sense becomes the narrator by, for instance, focusing on such aspects of mise-en-scene as the way actors look, move, gesture, or are costumed, or on the ways in which they are positioned in a scene or on how they are photographed.
[3] Lucy is so sweet and sensitive that she feels the influences more acutely than other people do.
[4] All goes well. Lucy slept till I woke her, and seemed not to have even changed her side; on the contrary, it has benefited her, for she looks better this morning than she has done for weeks. I was sorry to notice that my clumsiness with the safety-pin hurt her. Indeed, it might be serious, for the skin of her throat was pierced. […]. When I apologized […], she laughed and petted me, and said she did not even feel it. Fortunately it cannot leave a scar, as it is so tiny.
[5] Suddenly, away on our left, I saw a faint flickering blue flame. The driver saw it at the same moment; he at once checked the horses and, jumping to the ground, disappeared into the darkness. […] I think I must have fallen asleep and kept dreaming of the incident, for it seemed to be repeated endlessly, and now looking back, it is a sort of awful nightmare.
[6] After a while there was the howl again out in the shrubbery, and shortly after there was a crash at the window, and a lot of broken glass was hurled on the floor. The window blind blew back with the wind that rushed in, and in the aperture of the broken panes there was the head of a great, gaunt grey wolf. Mother cried out in a fright, […] and clutched wildly at anything that would help her. Amongst other
things, she clutched the wreath of flowers that Dr Van Helsing insisted on my wearing around my neck, and tore it away from me. For a second or two she sat up, pointing at the wolf, and there was a strange and horrible gurgling in her throat; then she fell over, […]. I kept my eyes fixed at the window, but the wolf drew his head back and a whole myriad of little specks seemed to come blowing in through the broken window. […] What am I to do? […] I am alone. […] Alone with the dead!
[7] Very shortly after she opened her eyes in all their softness and putting out her poor pale, thin hand, took Van Helsing´s […] drawing it to her, she kissed it. […] ‘My true friend, and his! Oh, guard him, and give me peace!’
[8] “We ask none to believe us! This boy will some day know what a brave and gallant woman his mother is. Already he knows her sweetness and loving care; later on he will understand how some men so loved her, thad they did dare much for her sake.”

 * Artigo publicado no I Simpósio Nacional de Grupos de Pesquisa em Estudos Literários, Maringá/2009.


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

OPERADORES DA NARRATIVA EM PROSA


Operadores da Leitura

•         Movimentos relacionados ao gênero:
            - introdução
            - desenvolvimento
            - conclusão
            -----
            - in ultima res
            - in media res
            - ausência de introdução ou conclusão definida

Narrativa

•         Fábula (história) e trama (enredo)
            - fatos anunciados pela narrativa
            - trabalho de criação do escritor, escolha de elementos textuais > construção de sentido
            - identificação da história narrada, síntese da história ou gênero
            - intriga

História narrada

Formalistas russos
- Fábula e trama
New criticism
- Estória e plot
Narratologia (Genette)
- diegese
Todorov e Chatman
- história e discurso
Barthes
- Récit e narração

Estrutura arquitetônica

-         Linear / cronológica
-         Não linear / multilinear (entrelaçamento de narrativas / rizomática
-         Episódica / fragmentada
-         Narrativa dentro da narrativa
-         Circular

Personagens

•         Segundo a importância no conflito dramático:
            - principal e secundária
•         Segundo o grau de densidade psicológica e ações:
            - Plana: grau baixo
            - Tipo: identificada pela categoria social
            - estereótipo: acumulação excessiva de signos que caracterizam determinada categoria social
            - Plana com tendência a redonda: grau mediano
                        - não é previsível
            - Redonda: grau alto
                        - mais complexa
                        - não redutível a uma categoria social

Narrador

•         Genette (1979)
            - heterodiegético: não participa da história narrada
            - homodiegético: participa da história narrada
            - autodiegético: narra a sua própria      história
•         Nível da diegese construída por sua narrativa
            - extradiegético: narração externa
            - intradiegético: narrativa secundária
            - hipodiegético/metadiegético: sua narrativa      se insere na narrativa principal (narrativa dentro da narrativa)

Focalização

•         cena: representação do diálogo das personagens, discurso direto, efeito de proximidade entre o leitor e a história
•         sumário: exposição dos eventos que caracterizam a narrativa, discurso indireto, afastamento entre leitor e a história

Foco narrativo – ponto de vista

•         Friedman (1955)
- “autor” onisciente intruso: extrapola os limites de tempo e espaço, minimiza a voz das personagens
- narrador onisciente neutro: 3ª. pessoa, descrição e caracterização das personagens, ausência de instruções e comentários
            - “eu” como testemunha: 1ª. pessoa, visão limitada
- narrador protagonista: 1ª. pessoa, narra seus sentimentos, pensamentos e percepções
- onisciência seletiva múltipla: discurso indireto livre, eliminação da figura do narrador, multiplicidade do ângulo de visão
            - onisciência seletiva: personagem central
            - modo dramático: predomínio da cena, discurso direto, gênero dramático
            - câmera: eliminação do “autor” e do narrador, neutralidade

Outros elementos

•         Tema (assunto central), motivos (definem-se a partir da ação das personagens), motivação (modo como o tema é trabalhado)
•         Nó (interrupção), clímax (auge), desfecho (resolução)

Espaço

•         ambiente: atmosfera que se estabelece entre as personagens
•         ambientação: modo como o ambiente é construído pelo narrador
            - franca: produzida por meio do discurso do narrador heterodiegético
            - reflexa: produzida através da focalização das personagens
            - dissimulada ou oblíqua: efeito de sugestão

Tempo

•         Objetivo (cronológico)
•         Subjetivo (psicológico)
            - monólogo interior: diálogo da personagem consigo mesma, questionamentos
            - análise mental: vazão aos pensamentos
            - fluxo de consciência: liberação de pensamentos, emoções, idéias, etc

Tempo da narração

•         Ordem: anacronias
            - in media res
            - in ultima res
            - analepses
            - prolepses

•         Duração:

            - cena – coincidência entre acontecimentos e fatos narrados
            - sumário – incongruência entre os acontecimentos e o relato das personagens
            - elipse – exclusão de detalhes
            - pausa descritiva – inserção de descrições
            - digressão – introdução de comentários



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SEIS PASSEIOS PELOS BOSQUES DA FICÇÃO – UMBERTO ECO (RESUMO)


Paraguassu de Fátima Rocha

Capítulo 1. Entrando no Bosque.
Leitor:
- ... é um ingrediente fundamental não só no processo de contar uma história, como também da própria história. (p. 7)
 EMPÍRICO:
- pode ler de várias formas e não existe lei que determine como deve ler, porque em geral utilizam o texto como receptáculo para suas paixões, as quais podem ser exteriores ao texto ou provocadas pelo próprio texto. 14  (corre atrás da própria experiência – memória particular).
MODELO:
- disposto a acompanhar uma história que não o envolve pessoalmente – uma espécie de tipo ideal que o texto não só prevê como colaborador, mas ainda procura criar. 15
- um conjunto de instruções textuais, apresentadas pela manifestação linear do texto precisamente como um conjunto de frases ou de outros sinais. 22
- o leitor recebe o privilégio de estabelecer um “ponto de vista” – significado do texto. (Iser)
- o leitor não só figura como integrante e colaborador do texto [...] ele nasce com o texto, sendo o sustentáculo da estratégia de interpretação [...] desfruta apenas a liberdade que o texto lhes concede (ECO) 22
- há um leitor modelo para cada tipo de texto e de cada um deles o texto espera um tipo diferente de cooperação.

Texto:
- Qualquer narrativa de ficção é necessária e fatalmente rápida porque, ao construir um mundo que inclui uma multiplicidade de acontecimentos e de personagens, não pode dizer tudo sobre esse mundo. (p. 9) – [o leitor preenche as lacunas do texto] e é obrigado a optar o tempo todo (p. 12)
- a narrativa de vanguarda muitas vezes tentou não só frustrar nossas expectativas enquanto leitores, como ainda criar leitores que esperam ter inteira liberdade de escolha em relação ao livro que estão lendo. 14
- o texto apresenta pistas e cabe ao leitor desvendar
Narrador:
- às vezes quer nos deixar livres para imaginarmos a continuação da história. (p. 12)

Autor:
- o autor quer que passemos o resto da vida imaginando o que aconteceu (p.13)
 MODELO:
- a voz que nos fala afetuosamente (ou imperiosamente, ou dissimuladamente), que nos quer ao seu lado. Essa voz se manifesta como uma estratégia narrativa, um conjunto de instruções nos são dadas passo a passo e que devemos seguir quando decidimos agir como leitor-modelo. 21
- se revela nos diferentes tipos de texto para nos dizer que as descrições apresentadas devem constituir um estímulo para nossas reações físicas. 23
- o autor modelo e o leitor modelo são entidades que se tornam claras uma para a outra somente no processo de leitura, de modo que uma cria a outra. 30
Pergunta:
Baseado nas críticas feitas por Eco ao ensaio de Poe “A filosofia da composição” (p. 50)  em que esse último desvenda os segredos da composição de seu poema “O corvo” e à interpretação alquímica dada à fábula “Chapeuzinho Vermelho” (p. 97-98), opine sobre a profusão das diferentes análises críticas e literárias atribuídas ao leitor modelo.

Capítulo 2. Os bosques de Loisy

Texto:
Há duas maneiras de percorrer um texto narrativo
1)      leitor modelo de primeiro nível – final da história
2)      leitor modelo de segundo nível – se pergunta que tipo de leitor a história deseja que ele se torne e que quer descobrir precisamente como o autor-modelo faz para guiar o leitor. 33
Para identificar o autor-modelo (pede a colaboração do leitor e nem sempre são muito explícitos) é preciso ler o texto muitas vezes e algumas histórias incessantemente. 33
Tempo:
- quando nos inteiramos de uma história que se refere a um tempo narrativo 1 (o tempo em que os fatos narrados ocorrem, o qual pode ser duas horas atrás ou mil anos atrás), o narrador e as personagens reportar-se  a algo que aconteceu antes dos fatos narrados. Ou podem aludir a alguma coisa eu, na época desses fatos, estava por ocorrer e era esperada.
- flashback parece reparar um esquecimento do autor – flashforward constitui uma manifestação de impaciência narrativa (GENETTE, 36)
- constantemente se é obrigado a voltar atrás algumas páginas para descobrir onde se está, no presente ou no passado relembrado. (PROUST) E se de fato voltamos atrás, percebemos que todo o discurso narrativo está entremeado de referências temporais. Na primeira leitura elas são invisíveis, porém na segunda se evidenciam plenamente. 44
A voz que nos fala de ligações temporais talvez queira nos fazer perder nossa noção de tempo, mas também nos estimula a reconstituir a seqüência exata dos acontecimentos. 45

Capítulo 3. Divagando pelo bosque

Tempo:
- o tempo narrativo também pode ser lento, cíclico ou imóvel (CALVINO) 55
Técnicas adotas para diminuir ou aumentar a velocidade
- inferências: a fim de prever o desenvolvimento da história o leitor se volta para suas próprias experiências de vida ou seu conhecimento de outras histórias. 56
Ex.: perguntas ao leitor: O que fazer?
- previsões: o processo de fazer previsões constitui um aspecto emocional necessário da leitura que coloca em jogo, esperanças e medos, bem como a tensão resultante de nossa identificação com o destino das personagens. 58
Formas:
- tempo da história: faz parte do conteúdo da história. Ex. 1000 anos
- tempo do discurso: escrever/ler – bastante curto. 60
O tempo do discurso é o resultado de uma estratégia textual que interage com a resposta dos leitores e lhes impõe o tempo de leitura. 63
Na ficção escrita é difícil estabelecer o tempo do discurso e o tempo da leitura; entretanto, não há dúvida de que às vezes uma grande quantidade de descrição, uma abundância de detalhes mínimos podem ser tanto um artifício de representação quanto uma estratégia para diminuir a velocidade do tempo de leitura até o leitor entrar no ritmo que o autor julga necessário para a fruição do texto. 65
- tempo de trepidação: retarda um final dramático e visa não só manter a atenção do espectador/leitor ingênuo do primeiro nível, mas também estimular a fruição estética do espectador/leitor do segundo nível. 72
- tempo de alusão: demora na descrição – visa não tanto diminuir o ritmo da ação, impelir o leitor a empolgantes passeios inferenciais, quanto indicar que devemos nos preparar para entrar num mundo em que a medida normal do tempo nada conta, um mundo em que os relógios estão quebrados. 75
- ritmo: aceleração/desaleração
Ficção:
- uma obra de ficção descreve pessoas em ação, o leitor  quer saber como essas ações se desenvolvem. 55
- se algo importante ou absorvente está ocorrendo, temos que cultivar a arte da demora. 56

Capítulo 4. Bosques possíveis
- O leitor precisa aceitar tacitamente um acordo ficcional – suspensão de descrença (COLERIDGE). O leitor tem de saber o que está sendo narrado é uma história imaginária, mas nem por isso deve pensar que o escritor está contando mentiras. O autor simplesmente finge dizer a verdade (SEARLE). Aceitamos o acordo ficcional e fingimos que o que é narrado de fato aconteceu. 81
- a obra de ficção nos encerra nas fronteiras de seu mundo e, de uma forma ou outra nos faz leva-lo a sério. 84
- para nos impressionar, nos perturbar, nos assustar ou nos comover até com o mais impossível dos mundos, contamos com nosso conhecimento do mundo real. Em outras palavras, precisamos adotar o mundo real como pano de fundo. [...] no entanto, devemos entender que tudo aquilo que o texto não diferencia explicitamente do que existe no mundo real corresponde às leis e condições do mundo real. 89
- os leitores precisam saber uma porção de coisas a respeito do mundo real para presumi-lo como o pano de fundo correto do mundo ficcional. [...] na medida em que o universo da ficção nos conta a história de algumas poucas personagens em tempo e local bem definidos, podemos vê-lo como um pequeno mundo infinitamente mais limitado que o mundo real. [...] e na medida em que acrescenta indivíduos, atributos e acontecimentos ao conjunto do universo real (que lhe serve de pano de fundo) podemos considera-lo maior que o mundo de nossa experiência.
- os mundos ficcionais são parasitas do mundo real, porém são com efeito “pequenos mundos” que delimitam a maior parte de nossa competência do mundo real e permitem que nos concentremos num mundo finito, fechado, muito semelhante ao nosso, embora ontologicamente mais pobre. Como não podemos ultrapassar suas fronteiras, somos levados a explorá-lo em profundidade. 91
- ler ficção significa jogar um jogo através do qual damos sentido à infinidade d coisas que aconteceram, estão acontecendo ou vão acontecer no mundo real. Ao lermos uma narrativa, fugimos da ansiedade que nos assalta quando tentamos dizer algo de verdadeiro a respeito do mundo. 93
- as afirmações ficcionais são verdadeiras dentro da estrutura do mundo possível de determinada história. 94
- no que se refere ao mundo real, a verdade é o critério mais importante  e tendemos a achar que a ficção descreve um mundo que temos de aceitar tal como é, em confiança. Mesmo que no mundo real, todavia o princípio da confiança é tão importante quando o princípio da verdade. 95
- o modo como aceitamos a representação do mundo real pouco difere do modo como aceitamos a representação dos mundos ficcionais. 96
- lemos romances porque nos dão a confortável sensação de viver em mundos nos quais a noção de verdade é indiscutível, enquanto o mundo real parece um lugar mais traiçoeiro. 97
- é possível inferir dos textos coisas que eles não dizem explicitamente – e a colaboração do leitor se baseia nesse princípio - , mas não se pode fazê-los dizer o contrário do que disseram. 98
- mas para decidir o que é verdadeiro ou falso no mundo real, tenho que tomar algumas decisões difíceis referentes a minha confiança na comunidade. [...] no entanto, até um mundo ficcional pode ser tão traiçoeiro quanto mundo real. Seria um ambiente muitíssimo confortável se tivesse de lidar apenas com entidades e eventos ficcionais. [...] o que acontece quando o leitor traz informações erradas a respeito do mundo real, não age como um leitor-modelo, e as conseqüências de seu erro constituem um assunto particular e empírico.
- o perfil do leitor-modelo é desenhado pelo texto e dentro do texto. 99
- espera-se que os autores não só tomem o mundo real por pano de fundo de sua história, como ainda intervenham  constantemente para informar aos leitores os vários aspectos do mundo real que eles talvez desconheçam. 100
- os leitores deviam fingir acreditar que a informação ficcional era verdadeira e ao mesmo tempo aceitar como verdadeira no mundo real a informação suplementar fornecida pelo autor. 101

Capítulo 5. O estranho caso da rue Servandoni

- a história verdadeira de uma construção ficcional – tem muitas morais. Primeiro mostra que somos constantemente tentados a dar forma à vida através de esquemas narrativos . [...] em cada declaração que envolve nomes próprios ou descrições definidas o leitor ou ouvinte deve aceitar a existência da entidade sobre a qual se afirma alguma coisa. 105
- suspender a descrença  e aceitar um texto como discurso ficcional porque é a única maneira de atribuir uma forma de existência à entidade postulada pela declaração, em qualquer mundo que seja. 106
- um dos acordos básicos de todo romance histórico é o seguinte: a história pode ter um sem-número de personagens imaginárias, porém o restante deve corresponder mais ou menos ao que aconteceu naquela época no mundo real. 112
- o que realmente nos interessa não é a ontologia dos mundos possíveis e seus habitantes, e sim a posição do leitor.
- como leitores empíricos sabemos muito bem que lobo não fala, mas como leitores modelos temos de concordar em viver num mundo em que os lobos falam. 113
- preocupação com detalhes sem importância.
- leitor capaz de descobrir alusões e ligações semânticas até onde o autor empírico não as percebeu. 115
- cultura universal e intertextualidade. 116
- todo texto ficcional contém uma contradição básica exatamente porque se esforça tanto para fazer o mundo ficcional corresponder ao mundo real.
- sinais temporais funcionam como sinais de trânsito, apagados porém perceptíveis num cruzamento enevoado. 119
- toda mensagem secreta pode ser decifrada, desde que se saiba que é uma mensagem. 122

Capítulo 6. Protocolos ficcionais

- obras literárias que se esforçam para ser tão ambíguas quanto a vida. 123
- projeção da representação na realidade.
- a narrativa natural descreve fatos que ocorreram na realidade (ou que o narrador afirma, mentirosa ou erroneamente, que ocorreram na realidade. 125
- a narrativa artificial é supostamente representada pela ficção, que apenas finge dizer a verdade sobre o universo real ou afirma dizer a verdade sobre um universo ficcional.
- a narrativa artificial é normalmente reconhecida graças ao “paratexto” – ou seja as mensagens externas que rodeiam um texto. Ex. a palavra romance.
- sinal textual (interno) de ficcionalidade mais óbvio: Era uma vez....
- projeção do conteúdo no mundo real. 126
- narrativa artificial é mais complexa que a natural.127
- a ficcionalidade se revela por meio da insistência em detalhes inverificáveis e intrusões introspectivas, pois nenhum relato histórico pode suportar tais efeitos de realidade. 128
- na ficção, as referências precisas ao mundo real são tão intimamente ligadas que, depois de passar algum tempo no mundo do romance e de misturar elementos ficcionais com referências à realidade, como se deve, o leitor já não sabe muito bem como está. O mais comum é o leitor projetar o modelo ficcional na realidade – em outras palavras, o leitor passa a acreditar na existência real de personagens e acontecimentos ficcionais. 131
- levar a sério as personagens de ficção também pode produzir um tipo incomum de intertextualidade: uma personagem de determinada obra ficcional pode aparecer em outra obra ficcional, e, assim, atuar como um sinal de veracidade. 132
- a narratividade é o princípio organizador de todo discurso.
- nosso relacionamento perceptual com o mundo funciona porque confiamos em histórias anteriores. 136
- confiamos num relato anterior quando, ao dizer “eu”, não questionamos que somos a continuação natural de um indivíduo que nasceu naquela determinada hora, dia, ano, local.
- memória individual: nos habilita a relatar o que fizemos ontem.
- memória coletiva: nos conta a história de outro.
- a mistura de memória individual e memória coletiva (histórias de nossos antepassados) prolonga a vida, fazendo-a recuar no tempo, e nos parece uma promessa de imortalidade.
- a ficção nos proporciona a oportunidade de utilizar infinitamente nossas faculdades para perceber o mundo e reconstituir o passado. A ficção tem a mesma função dos jogos. Brincando as crianças aprendem a viver, porque simulam situações em que poderão encontrar como adultos. E é por meio da ficção que nós, adultos, exercitamos nossa capacidade de estruturar nossa experiência passada e presente. 137
- notoriedade do fato através do romance. 140

ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A BASE DA INTERPRETAÇÃO ACADÊMICA DO TEXTO LITERÁRIO

Paraguassu de Fátima Rocha

   A análise e a interpretação de um texto literário não devem partir de um direcionamento meramente subjetivo, pois, para que tais procedimentos se efetivem torna-se necessária a utilização de regras firmadas ao longo do tempo por teóricos e críticos.
    As correntes críticas que se desenvolveram foram responsáveis pela fixação de parâmetros úteis num determinado momento histórico, mas, de certa forma, também impediam a extrapolação do texto, fechando-o em si mesmo. Assim se constatou com o Formalismo Russo, rompido por R. Jakobson e I. Tynianov, os quais abriram novas perspectivas para o estudo do texto literário. Acompanharam essas perspectivas Jan Murakovsky, Mikhail Bakhtin e Julia Kristeva, entre outros, que vislumbraram as possíveis relações entre os textos, fossem eles contemporâneos ou afastados pelo fator temporal, o que viria a constituir a intertextualidade.
     É importante ressaltar também as considerações de Robert Jauss e Wolfgang Iser a respeito da Estética da Recepção e Roland Barthes com a "morte do autor", nas quais a barreira do imanentismo cede lugar à tríade produção, obra e recepção.
     Examina-se  rapidamente aqui esses três elementos, respondendo à pergunta que a originou: De que maneira a opinião do autor e do crítico ajudam a compreender melhor a obra como um todo e também o seu fazer artístico como fruto do mais puro lirismo?
      Ao considerar a função estética do texto literário em que predominam recursos como a articulação entre expressão e conteúdo, a conotação, a pluralidade de significados, ideias e imagens, coloca-se o autor como responsável pela configuração dessas características. Mas como deprendê-las do texto sem um conhecimento prévio?
      A participação do teórico-crítico é fundamental na solução desse problema, à medida que incita a interpretação e estabelece relações mais claras entre a leitura descompromissada e aquela capaz de aproximar o analista acadêmico do real sentido do texto.
      Darcy Damasceno, poeta e teórico, por exemplo, ao analisar o livro Viagem de Cecília Meireles resume prazerosamente os meandros que lhe conferem o titulo, apresentando critérios que facilitam sua compreensão. "Viagem vale pela revelação definitiva de uma natureza artística em sua plenitude e de um estilo poético em seu ponto de perfeição [...]. Daí certa tendência descritiva (melhor diríamos: representativa) de sua poesia, que exige a presença de elementos concretos mesmo nas peças intimistas onde se cristalizam estados anímicos" (DAMASCENO, 1972, p. 17-18).
       A análise de Damasceno estimula também a formulação de novas leituras, orientando para as considerações de Bakhtin (1992, p. 205) sobre o artista. Para Bakhtin, todo artista tem a tarefa de encontrar um meio de aproximar-se da vida pelo lado de fora, ou seja, a sua criação não deve partir apenas do seu eu interior, mas buscar através do seu contexto histórico e social uma nova visão de mundo. É o que faz Cecília em Viagem segundo Damasceno. O autor destaca que "A pluralidade de assuntos diz bem do ineresse humano da autora [...]; as mais humildes manifestações da vida, os seres diminutivos, os episódios mais singelos são motivo de elevada reflexão [...]. A um poeta visual [...] como Cecília Meireles, não poderia escapar o desempenho de cada ser na mecânica do mundo" (DAMASCENO, 1972, p. 18)
         Essa opinião é coincidente à de Cecília Meireles ao afirmar que ""o poema perfeito é o que apresenta forma e expressão num ajustamento exato", mas que em função as condições do seu mundo seria raro encontrar "poetas tão em estado de vivência puramente poética, livres do atordoamento do tempo, [...] que criem poesia como se fossem cristais".
       Barthes ao se referir ao autor em seu ensaio "A morte do autor" esclarece que esse não é simplesmente uma "pessoa", mas um sujeito constituido social e historicamente, não existindo antes ou fora da linguagem. Ou seja, um poema, no caso específico de Cecília Meireles, não pode ser considerado apenas em sua estrutura, mas como resultado de experiências vividas que se traduzem em seu lirismo através da linguagem metafórica, o uso de recursos como ritmo, sonoridade, repetição de palavras, sequenciações, repetição de situações ou descrições, ou conforme Massaud Moisés, "o lirismo constitui a manifestação das inquietudes emocionais e sentimentais; o estado natural do "eu" para si próprio, e, portanto, a expressão da resposta mais pronta do poeta aos estímulos externos e internos" (MOISÉS, 2004, p. 262).
        Pelas razões expostas acima, não é difícil esclarecer o papel que essas opiniões têm no processo de análise de textos literários, especialmente na análise acadêmica, pois é através delas que serão constituídas as leituras possíveis, estabelecendo relações entre textos, como por exemplo, nos poemas "Motivo" de Cecília Meireles e "Razão de Ser" de Paulo Leminski, desvendando seus significados intrínsecos e tornando ativo o papel do leitor, sem contudo abandonar as "estratégias de interpretação" propostas por Fish citado por Eagleton (2003, p. 118), as quais indicam que "os leitores em questão são leitores "informados e familiarizados", formados em instituições acadêmicas, cujas reações provavelmente não serão [...] demasiado divergentes entre si [...].
       Dessa forma, tem-se o texto literário como obra aberta, passível de recriação, mas sem abandonar o seu sentido universal.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BARTHES, Roland. "Death of the author". Disponível em http://jefferson.village.virginia.edu/
_______________. "Exit author". Disponível em http://www.triplov.com/
CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura comparada. São Paulo: Ática, 1986.
DAMASCENO, Darcy. "Poesia do sensível e do imaginário" in: MEIRELES, Cecília. Obras Poéticas. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1972.
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 2004.
"Death of the author"





domingo, 21 de agosto de 2011

A ASCENSÃO DO NEGRO NA AMÉRICA E AS METÁFORAS DE ARIEL, CALIBÃ

Paraguassu de Fátima Rocha et al

O processo de escravização do negro na América permaneceu ativo por aproximadamente 250 anos e, apesar dos movimentos articulados em favor da liberdade dos escravos, o afroamericano continuou quase invisível na sociedade americana até Barack Obama conquistar a presidência dos Estados Unidos. O novo líder negro deve dar continuidade às lutas iniciadas por Malcolm X e Martin Luther King Jr. pelos direitos civis de um povo segregado e humilhado durante muito tempo. Tentando compreender o perfil destes homens, que se empenharam em projetar do negro no cenário social e político da América, este estudo busca nas metáforas literárias de Ariel, Calibã e Exu a resposta para as questões do assimilacionismo propostas por Munanga (1986), que sugere uma aproximação cultural entre negros e brancos; do nacionalismo defendido por Tyson (2001), que descreve a posição de isolamento do negro diante do outro e a resistência aos interesses do opressor; e o catalismo, também descrito por Tyson (2003), que propõe a reaproximação de culturas através de intermediações que levem negros e brancos a reformularem suas estratégias de convivência, a fim de garantir a preservação da identidade.